Saí Mateus e voltei Mickaella para o trabalho, mas um dia precisei me “desconstruir”

“Consegui a alteração do meu nome e gênero no meu registro e me sinto mais aliviada”

Essa é a história de uma pessoa que resolveu encarar todos os desafios que viriam ao tornar pública a sua transexualidade. Da noite para o dia, tomou coragem e mudou completamente a sua vida. Só ela não esperava ter que voltar atrás numa situação delicada para não se sentir oprimida por conta do preconceito.

Era próximo das oito da manhã de uma segunda-feira típica de início de rotina de trabalho quando Mickaella (39) estava pronta e disposta a revelar a todos sua verdadeira identidade até então escondida do seu convívio profissional.

“Cheguei em casa tarde da balada e decidi não remover maquiagem, nem peruca, e simplesmente que seria a hora de todos do meu trabalho saberem quem eu sempre quis ser e quem a partir daquele instante me tornaria, a Mickaella, e não mais o funcionário Mateus que conheciam.

Dormi um pouco, saltei da cama, pus o uniforme, peguei o Uber e fui trabalhar, disposta a aceitar a Mickaella por mim mesma. Tinha de ser naquele dia, naquele momento, não foi algo que parei para pensar, embora fosse esse um desejo latente”, conta.

Ainda no carro, passou mensagens a algumas pessoas mais próximas do trabalho para falar da novidade, pedindo para que preparassem o clima para a sua chegada.

“Pedi que me recebessem bem na recepção, pois isso seria muito importante para mim. E assim foi feito. Veio gente de tudo que é setor prestar algum tipo de apoio, de palavra positiva, de força, e aquilo foi tomando uma proporção tão grande que a adrenalina estava a mil e eu nem percebi o quão tudo foi impactante para todos nós.

A empresa onde trabalho me dá orgulho fazer parte, ela é inclusiva. O gerente prontamente organizou uma reunião com todas as lideranças e estabeleceu que a partir daquele momento a loja deveria me chamar pelo nome social, que o respeito seria a palavra de ordem e qualquer que fosse o mínimo ato de intolerância, tratativas seriam dadas. Lembro muito mais das congratulações pela minha coragem do que qualquer outro sentimento ou olhar controverso”.

Mas Mickaella relata que, embora tenha se sentido acolhida por boa parte do pessoal, alguns olhares tortos no dia a dia ainda a incomodam.

“Você percebe quem não senta ao seu lado pra almoçar como antes, quem desvia um assunto que você tenta desenvolver, quem ainda compara Mateus com Mickaella. Eu arrisco dizer que senti mais rejeição num olhar das meninas (mulheres cis) do que dos meninos (homens cis). Sim, isso mesmo. Percebi homens interagindo comigo de modo acolhedor e natural como nunca imaginei, quando eu esperava isso de uma maioria de mulheres”, desabafa.

Aí entra a importância de um preparo emocional para encarar as inevitáveis negativas. De acordo com a psicóloga Ana Helena Elias Alvim, psicanalista voluntária do Ambulatório de Gênero e Sexualidades do Hospital de Clínicas da Unicamp, a questão da transgeneridade ainda caminha em passos lentos, razão pela qual o apoio, o acolhimento e o acompanhamento psicológico tornam-se essenciais para encarar situações desafiadoras.

 “Há muita resistência de diversas esferas da nossa sociedade e a ausência de uma rede de apoio leva a pessoa trans a vivências de angústia e sofrimento, por enfrentar de modo solitário repetidas situações de preconceito e violências”, explica Alvin.

Despertei em outras pessoas serem quem elas quiserem

Ainda que passe por situações complexas no seu cotidiano, Mickaella acredita que a sua história pode ter sido transformadora para outras pessoas do seu ambiente profissional.

“Logo que assumi a minha nova identidade, senti um peso significativo para outras pessoas trans no meu convívio de trabalho porque, embora o respeito, o acolhimento e a identidade de gênero estejam inseridas nos valores da empresa, as pessoas têm suas inseguranças e esse meu movimento despertou nelas uma motivação para serem quem são, afinal, no meu caso, era uma chefe de setor que se assumia trans e, queira ou não, a hierarquia pesa na representatividade e toda essa aceitação me deixa muito aliviada.

Mas Mickaella relembra que duas semanas antes de sentir esse alívio de se apresentar a todos como pessoa trans passou por uma forte crise de depressão, chegando a se despedir de amigos e familiares por telefone com a intenção de acabar com a sua vida.

“Por sorte, recebi alguns amigos que me acalmaram e me fizeram companhia nesse dia, mas eu não aguentava mais ser quem eu não queria ser. Não suportava mais me mostrar na noite e temer o dia, pois o dia é a representação clara da convivência social. Pessoas vão à escola, padaria, farmácia, trabalham, circulam, põem a cara no sol, e eu também já passava da hora de vivenciar tudo isso e deveria ser parte dessa realidade, porque não se trata de surgir da noite pro dia num estalo de dedos, era sobre se esconder na escuridão pra se proteger da luz nua e crua”, revela.

Segundo a psicóloga, esse tipo de relato é comum na escuta de pessoas trans ou travestis, e assumir um lugar de luta por esses direitos básicos torna-se extremamente desafiador para elas, já que as experiências negativas, bem como a falta de uma convivência natural, geram e acentuam a uma exclusão, deixando-as à margem da sociedade.

“Em consequência de todas essas vivências, embasadas pela teoria de estresse, muitas pessoas desenvolvem quadros de ansiedade e depressão, por exemplo, que podem ter uma influência em tentativas de suicídio, principalmente quando não tratadas e acompanhadas por especialistas da saúde mental”, alerta a profissional.

Mas foi só depois de uma conversa com a irmã sobre a sua angústia que Mickaella tomou coragem para encarar a vida e enfrentar todos os desafios que viriam pela frente. “Conversamos pela primeira vez abertamente sobre a transição. Recebi total apoio e me senti livre e disposta a assumir minha identidade no trabalho e na sociedade inteira, inclusive para minha mãe, que é a parte mais importante nesse processo, e ela aceitou, dizendo que sempre soube disso. Me sinto sortuda e privilegiada nesse sentido.

Depois de passar pelo seu maior receio em sua transição no que se refere à aceitação da família, Mickaella passou a esbarrar em situações burocráticas e que levavam a outras preocupações, entre elas a de receber tratamento digno na área da Saúde.

“Jamais tive a ilusão de que seria fácil, de fato não é. Atualmente, minha luta tem sido para conseguir atendimento para tratar das questões hormonais e até mesmo mudança de sexo. Muitas de nós acabam tomando hormônios de maneira irresponsável, por conta própria e não assistida por um especialista, por causa do difícil acesso no atendimento.

Também esbarrei por muito tempo em questões relacionadas à alteração do nome social em todos os meus documentos, incluindo meu diploma acadêmico, já que tudo isso custa um preço considerável. São barreiras que passamos e todos os dias é um não diferente, mas eu creio que vou chegar lá, estou tentando me agarrar ao sonho novamente. Preciso renascer e brilhar com luz própria”.

Diante da dificuldade em trocar o nome social, o maior receio que Mickaella tinha aconteceu. Ela relata dois episódios de atendimento na Saúde que a deixaram incomodada e vulnerável. “Um deles foi quando fui tomar a terceira dose da vacina contra a Covid-19 e a moça da triagem pegou meu documento, olhou pra mim, que estava visivelmente feminina, e me chamou pelo nome de registro. Aquilo me doeu demais, não me esqueço desse episódio”.

Para evitar esse constrangimento, na segunda situação Mickaella tomou uma decisão que lhe custou o retrocesso de toda uma construção já consolidada.

“Sempre tive muito medo de passar mal, ter que parar num hospital e ver o nome Mateus no painel e não saber como os profissionais da saúde lidariam com essa situação. Tinha medo de ser mal atendida por conta disso, sei lá”.

Para evitar esse mal-estar, Mickaella voltou a ser Mateus por um dia, numa noite em que precisou de atendimento médico. Ela conta que preferiu deixar a peruca de lado, as maquiagens e as roupas de sua nova identidade para ser quem era antes da transição, tudo para evitar o constrangimento e por receio de ser mal atendida no momento em que sua saúde estava debilitada.

“Sim, me ‘desconfigurei’, me ‘desconstruí’ e a sensação foi de impotência perante a burocracia no que se refere à mudança do nome social e todo o preconceito ainda existente. Foi horrível, mas preferi que fosse assim, mas acredito que com a luta por nossos direitos um dia essa realidade vai mudar e as pessoas vão nos ver como a gente realmente é e merece ser vista”.

Hoje, Mickaella não precisa mais se esconder por trás de um documento. No final de 2022, conseguiu sua tão esperada mudança de nome e gênero em seu documento de registro. “Virei o ano com tudo novo, agora consegui trocar também o meu título de eleitor e RG e espero conseguir fazer todas as outras alterações. É uma luta diária, uma conquista a cada dia e só o que a gente precisa é de respeito. Só quero seu quem eu realmente sou e ter a paz de espírito que mereço”.

(Imagem: arquivo pessoal)

Faça como a Shakira e dê a volta por cima

Cena do clipe Te Felicito – reprodução YouTube

Dias desses vi o filme Tolerância, que aliás indico, em que uma das personagens, a Anamaria, vivida na pele da atriz Maria Ribeiro, era amante de um cara casado, que vivia um casamento supostamente aberto. Até então, marido e esposa acreditavam aceitar numa boa um relacionamento extra. O fato é que, na prática, no momento em que se viram em situações reais dessa abertura, tudo mudou.

Para colocar mais pilha na discussão do casal e deixar a prova de que esteve na casa dos dois na ausência da esposa do amante, Anamaria resolveu jogar pelo ralo todo o xampu da mulher que, ao chegar e ir ao banheiro, viu o frasco vazio, se dando conta de que alguém teria utilizado o conteúdo, sabida de que não seria o marido e que certamente se tratava de uma traição.

E como a vida imita a arte e a arte imita a vida…

Recentemente deu para ver que não é apenas nos filmes que essas cenas acontecem. Os bastidores da vida real mostram que isso ocorre mundo afora, na vida amorosa dos mais pacatos casais até os mais badalados, como foi o caso da cantora colombiana Shakira e seu então marido, o jogador de futebol Gerard Piqué.

O casal está separado desde o ano passado, mas foi agora, em janeiro, que a motivação desse desenlace veio à tona e se tornou um dos assuntos mais comentados nos sites de fofocas de celebridades. E tudo isso por conta de um pote de geleia de morango.

Isso mesmo, da mesma forma que a esposa do filme percebeu que algo estava errado e que alguém teria usado o seu xampu, Shakira desconfiou do marido por conta de um pode de uma iguaria que apenas ela comia em casa, já que o marido e filhos não curtiam.

Logo sacou que alguém estaria usufruindo de sua casa, de seu marido e de sua geleia enquanto ela viajava para fazer seus shows. E assim ela descobriu a traição do cidadão.

O fato é que a cantora soube virar o jogo e ao invés de choramingar pelos cantos, decidiu se vingar em suas letras e que viraram um sucesso tremendo.

No ano passado, ela já havia produzido um clipe com a música “Te felicito” e que ela aparece abrindo uma geladeira, deparando-se com a cabeça de um homem ao lado de alguns potes. O vídeo alcançou mais de 542 milhões de visualizações na plataforma YouTube desde que foi lançado.

O caso repercutiu dia desses, já que a cantora passou a fazer novamente insinuações sobre esse fato em suas recentes músicas.

A artista, que já é uma das mais famosas do mundo, conquistou o primeiro lugar em sua mais nova música “Music Sessions Vol 53“, com várias indiretas ao ex, alcançando sucesso enorme, sendo essa a canção espanhola mais ouvida em um único dia com mais de 14 milhões de streams no Spotify, além de lucrar muita grana novamente no YouTube, já que a moça ultrapassou 182 milhões de visualizações desde 11 de janeiro. Já parou pra fazer uma continha bem rápida de quanto a cantora faturou transformando a dor de corno em belas cifras?

E você, já passou por alguma situação assim ao descobrir uma traição de forma inusitada? Se sim, o que fez para dar a volta por cima na descoberta de um tal pote de morango dentro da sua geladeira comido por uma terceira pessoa, um frasco de xampu vazio ou algo parecido?

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Quando a brincadeira é lavada a sério...

Amigo secreto de Natal: tempo de paz – só que não

Parentes e amigos estão reunidos para começar o amigo secreto do Natal. Ledinalva começa:

– Meu amigo secreto já teve um caso com o Eteobaldo antes de ele se casar com a minha cunhadinha Zulmira – Nalva olha para todos, fixando o olhar para alguns.

_ Que absurdo é esse, Ledinalva. Para de inventar história _ diz Eteobaldo, visivelmente tenso.

– Téeeeeeooooo, que babado é esse, menino, bem que eu já desconfiava. E aí, vai contar ou a gente tem que adivinhar? É homem ou mulher? Acho que sei quem é –fala Ludinália, bebinha da silva, olhando para Catrina, amiga de Ledinalva.

_ Pra deixar suspense, vou revelar quem é o meu amigo secreto só no fim da brincadeira. Quem fala agora? _ provoca Ledinalva.

– Ok, já que é assim, todo mundo só dá as dicas por enquanto e no fim todo mundo revela quem é quem, certo? _ sugere Genivalda.

_ Combinado. O meu amigo secreto fuma maconha todo dia antes de entrar na escola e a mãe dele acha que ele é um santo _ os meninos todos disfarçam a fala sem noção de Zulmira.

– Ô, mãe, pega leve com os meus amigos _ responde, totalmente sem graça, Eteobaldo Júnior.

– A minha amiga secreta adora cuidar da vida dos outros, mal sabe que o marido dela pega a minha professora toda vez que ela sai de casa _ revela Armandinho, um dos amigos de Júnior.

_ O filho da minha amiga secreta é gay e o pai dele é o maior homofóbico de todos _ atiça o esposo de Zulmira.

– O meu amigo secreto é um filho da puta que vai levar uma coronhada se não parar de falar merda _ esbraveja Zeferino, pai de Armandinho.

Ledinalva tenta apaziguar a situação:

– Opa, opa, vamos acalmar os ânimos porque é Natal e a nossa família é um exemplo de paz e harmonia. Oremos um pai nosso e depois a gente volta com a nossa brincadeira. Eu começo e vocês continuam. Pai nosso que estais no céu…perdoais as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido…

_ E não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal, amém _ todos, numa só voz.

_ Vamos continuar? Genivalda, você agora _ retoma Nalva.

_ O meu amigo secreto é um anjo, um santo …do pau oco _ Genivalda não se contem, em sua vez de falar.

_ Nossa, mas nem com reza a paz reina aqui hein, senhor! Vamos lá, Marinalva, fale sobre o seu amigo _ orienta Ledinalva.

_ O meu amigo secreto esqueceu que eu emprestei cinco pila pra ele pagar os caras da boca e nunca mais me devolveu _ desabafa Marinalva, ao passo que se ouve pigarros de Cremildo.

– Eu guardo um segredo macabro da minha amiga secreta e estou pensando seriamente em revelar hoje _ insinua o pigarrento nervoso.

_ Ah, que saber, já chega dessa palhaçada toda, vai cada um pra sua casa e acabou essa besteira de amigo secreto dosinferno _ ordena Marinalva, a dona da casa.

_ Mas, Marinalva, é Natal, e nós estamos em família, viemos comemorar _ relembra a parenta, enquanto a anfitriã pega uma espingarda e fala:

– Se o amigo secreto de todo mundo não sair daqui em trinta segundos, teremos um Natal inesquecível…3…2…1 e atira para cima.

Cada um pega apressadamente o que levou de ceia, sem sequer ao menos ver a tão esperada presença do bom velhinho.

Feliz Natal.

Marcelina, Rapunzel

Marcelina, Rapunzel

Marcelina saiu de casa se sentindo o último patinho feio do universo. Para disfarçar a desmazelice do cabelo, sem lavar há três dias, fez duas tranças, feito Rapunzel, e saiu, despretensiosamente. Respirou firme, pegou a sua garrafinha de água e foi para a aula diária de spinning.

Suada, cansada, mas com ar de felicidade de quem matou qualquer indício calórico decorrente de seus deslizes de chocólatra assumida, lá estava a moça, caminhando a pé, de volta ao seu humilde lar.

A bela não resistiu à tentação e parou em uma loja de conveniência. Sorriu para todos, pois estava feliz, sem sequer saber o motivo. Avistou um rapaz, que a ela sorriu também, pegou o seu pacotinho de suspiros e rumou para o seu destino.

A noite estava linda. A lua, grandiosa e cheia de graça. Os carros se entrepassavam pela avenida, até que um deles parou ao lado de Marcelina e uma voz encantadora soou nos ouvidos da moça. Era o mesmo do sorriso…

_ Sabia que você é muito bonita?

_ Obrigada.

_ Posso te conhecer?

_ Hoje não!

_ Qual seu nome?

_ Marcelina

_ Ok, você é linda!

Os passos de Marcelina seguiram caminho e o carro também, distanciando-se cada vez um do outro.

_ Marcelina, Marcelina, sua burra, como assim hoje não, hoje não??? E quando será, sua idiota? O cara sequer sabe quem é você! Anotou a placa? Não, né! Sabe quando ele vai te encontrar nessa cidade enorme? Nunca mais! _ disse para si, eufórica com o elogio, mas ao mesmo tempo incrédula por não seguir o papo adiante.

Assim que chegou em casa foi ver se o rapaz a havia encontrado na internet. Ah, sim, você acha mesmo que ele vai fazer uma busca por todas as Marcelinas deste mundo até te encontrar, né, ô cara pálida? Acorda, menina, perdeu _ falou sozinha, olhando para o espelho.

Não foi fácil dormir naquela noite. A cada meia hora a jovem sonhadora olhava o celular em busca de um oi qualquer do desconhecido do sorriso encantador daquela loja de conveniência.

Dia seguinte, sequer conseguiu trabalhar no renomado restaurante da cidade onde era reconhecida a melhor chef da gastronomia francesa. Tudo dessalgou, ou salgou demais. A cabeça estava em outro lugar. Naquela avenida…

Nessa mesma noite, Marcelina seguiu seu ritual, trancinha no cabelo, exercício puxado de bike na academia, loja de conveniência, caminhada a pé em casa, mas dessa vez com o melhor look, make perfeita, perfume do mais caro, tudo.

A cena se repetiu por mais alguns dias e nada de a bela rever o tal rapaz. Ela não sabia mais o que fazer para tentar esse reencontro platônico até ter uma ideia um tanto quanto inusitada, vulgo loucura de amor.

Marcelina colocou uma faixa exatamente onde foi abordada pelo rapaz com os dizeres: Ei, você, que me achou tão bonita, onde estás? Passo aqui todos os dias, no mesmo horário. Ainda quer me conhecer?

Para sua decepção, nada de o moço aparecer. Desiludida, passou a se produzir cada vez menos para ir às aulas e voltou à desmazelice de sempre, sentindo-se novamente a pata mais feiosa de todas….

Já nem mais ligava para o estratégico e furado ritual da tentativa do reencontro com o belo, até o dia em que sentiu um cheiro atrativo de suspiro no ar e suas tranças cor de mel se encontraram frente a frente com aquele mesmo sorriso de encanto sereno naquela mesma loja de conveniência.

Sem saber o que fazer ou dizer, Marcelina deu um meio sorriso, desviou timidamente o rosto com olhar cabisbaixo e seguiu adiante, passo a passo, rumo ao seu destino, destino esse que dessa vez a levou para outro lugar.

A noite estava linda. A lua, grandiosa e cheia de graça. Os carros se entrepassavam pela avenida, até que um deles parou ao lado de Marcelina e uma voz encantadora soou nos ouvidos da moça.

_ Sabia que você é muito bonita?

_ Obrigada.

_ Será que hoje posso te conhecer?

_ Com certeza.

(conto de Claudia Rato – autora do livro Pra mim você morreu – para adquirir o livro, acesse a conta do instagram)

A mandinga da caatinga

Juvanilda se apaixonou por Estoclênio no dia em que o rapaz foi até sua casa resolver um problema de encanamento. Desde essa visita, volta e meia a moça dava um jeitinho de chamar o sujeito para fazer outros reparos. Já não havia mais cano quebrado para trocar, até que numa dessas idas do então profissional a mulher partiu para o ataque.

E não é que Estoclênio gostou? Em menos de uma semana, lá estava o casal dividindo o mesmo teto, no semiárido sertão de um pequeno e pacato povoado de Caatinga de Juazeiro do Sertão Velho.

Assim que juntou os trapos com Juvanilda, Estoclênio largou a vida de encanador para trabalhar na roça, no assentamento do cunhado.

Certo dia, uma prima da tia avó do pai de Juvanilda, a Crispiniana, resolveu voltar a sua terra natal para relembrar os bons tempos vividos no agreste, de quando as crianças banhavam sem roupa nenhuma no rio, só pensando em se divertir e curtir a bela e boa infância que não volta mais.

Cris ficou tão emocionada com aquela lembrança que resolveu voltar literalmente ao tempo. Como não havia ninguém beirando o pequeno lago, a moça, de falso loiro no cabelo e pernas carnudas, delineadas de tanto puxar ferro na academia da capital, resolveu reviver o passado, de corpo e alma. Tirou seu vestidinho florido de seda e ficou do jeitinho que veio ao mundo, prestes a se esbaldar naquela límpida e calma água.

Juva não sabia, mas por trás da carinha de santo do amado, de pessoa tímida de pouco menos de um metro e sessenta e que se fazia sem jeito para se achegar a uma mulher, havia um homem inquieto, que não podia ver um rabo de saia dando trela para ele, que se abria todo.

Em sua andança rumo à labuta em meio ao calor de quase quarenta graus, Estoclênio resolveu se refrescar um pouco e se deparou com Crispiniana, linda e nua, à sua frente. Nesse dia não teve trabalho. O moço ficou lá, paralisado, feito estátua, admirando a beleza da mulher, até ela se aproximar e os dois se roçarem por lá mesmo por um bom tempo.

Mal o sol dava o ar da graça no dia seguinte e a jovem já havia ido embora para a cidade grande, a léguas e léguas de distância daquele lugar. Estô descobriu onde a mulher morava e não pensou duas vezes – foi atrás da sua mais nova paixão. Em linhas tortas e mal escritas, deixou uma carta para Juvanilda e disse que não mais voltaria para casa.

Feito agulha no palheiro, o rapaz conseguiu, com muito custo, chegar até o paradeiro da loira e conquistar o coração da moça.

Seis meses se passaram e Juvanilda não se conformava ter perdido o seu homem para outra mulher. A sobrinha da comadre de seu tio fazia umas mandingas para quem queria reconquistar o amado. Ao ler o letreiro na porta da casa da parenta distante, escrito em letras garrafais “trago seu ex de volta”, Juva não titubeou e tratou de pedir um trabalho certeiro.

A macumba era fácil de fazer e segundo a mandingueira era tiro e queda. Bastava a mulher colocar o nome do cara e da atual dentro da boca do sapo, olhar bem no olho do bicho e falar três vezes: “esse homem é meu e de mim ninguém tira, sai pra lá, muié, que esse aí já tem quem qué, sai de perto, coça, coça, vem, meu macho, aqui pra roça”. Trabaio feito.

Tudo era muito simples. A única coisa que Juvanilda tinha que ficar atenta é que se o ex voltasse, e estava confiante de que voltaria, sempre que aparecesse um sapo (ou uma rã) em sua casa, ela teria que colocar o nome dele e da falsa galega goela abaixo do bichano.

E não é que o cabra da peste voltou? Não deu uma semana e o rapaz estava lá, no portão, batendo palma para entrar. Juva deu um pulo da cama, se emperiquitou toda, como se fosse ao baile, em plena seis da matina, abriu um sorrisão e destrancou a porteira.

O companheiro voltou um anjo, pianinho, com uma mão na frente e outra atrás. Juvenilda nem quis saber o que aconteceu, apenas se fez feliz que seu macho estava de volta – e era isso que importava.

Com a rotina de volta àquela terra, cercada de xique-xique da caatinga daquele pedaço de fim de mundo, Juvanilda mantinha a tradição da mandinga e sempre que avistava uma figura esverdeada em formato de gia já preparava a tal escrita para colocar em sua boca e garantir a paz de espírito e o amor naquele recinto.

Certo dia, ela e o maridão saíram para festejar a venda de meia dúzia de cabritos. A mulher bebeu um pouco de cachaça a mais e estava alegrinha, alegrinha. Quando chegou em casa, manguaçada que só, não se apercebeu da ilustre visita de uma perereca na sala.

A bichinha já estava quase saindo de casa quando Estoclênio a avistou e se assustou. Estabanada e apressada para não botar tudo a perder, a mulher pegou um papel e caneta, escreveu rapidamente os nomes e colocou na boca da rã, que engoliu tudinho na mesma hora.

Dia seguinte, Juvanilda não conseguia sequer ficar perto do marido que lhe vinha uma coceira danada. A urticária aumentava só de ouvir a voz do rapaz. Tudo que poderia levar Juva a se lembrar do amado fazia bolhas saltarem, feito sapo, uma a uma pelo seu corpo.

Não tinha trabalho nenhum que fizesse a moça parar de se coçar perto de Estô, que não teve outra saída a não ser ir simbora pra bem longe da mulher.

Numa noite calorenta, daquelas em que era preciso deixar portas e janelas abertas para ver, em vão, se um pouco de vento entrava, adentrou em sua casa uma rãzinha que parecia familiar. Estava maior um pouco, mas era a mesma de tempos atrás. A bichinha abriu a boca, jogou um pedacinho de papel no chão, olhou bem no olho de Juva e foi-se embora. No tal papelzinho estava escrito, Juvanilda X Estoclênio.

Só a partir daí que mulher se deu conta do pequeno grande erro cometido naquela noite de manguaça. Mas já era tarde demais. Juva já estava casada, ainda que a contragosto, com um primo do compadre da tia de Estoclênio, com cinco filhos pra criar e mais um, que estava por chegar.

(Imagem: Freepik)