Três coisas que te deixaram alegre hoje

Numa terapia em grupo, a terapeuta pediu: listem três coisas que te deixaram alegres hoje.

Parecia fácil, mas o silêncio pairou. Até que uma mulher, sem rodeios, disse:

“Nada. Ao contrário, só estresse, nervoso, ônibus lotado e gente reclamando do meu lado”.

A energia pesou, e uma colega tentou amenizar o clima. “Gente, só de acordarmos vivas já é uma alegria”.

Não pude deixar de compartilhar a minha listinha de bons momentos, a começar pelo meu cachorro, que me dá sempre um bom dia de tirar qualquer tristeza do caminho. Outro foi a gargalhada de uma menina em um vídeo institucional que eu editava e, que me fez lembrar como é bom rir, feito criança. O brigadeiro, não tão bem feito por mim, mas que comi até raspar a panela, também tinha uma dose de felicidade.

Uma outra mulher disse, entusiasmadíssima, que o marido lavou toda a louça do café e do almoço, o que a deixou feliz pro resto do dia. Rimos, e logo a conversa mudou de rumo. Tarefas de casa, quem ajuda quem, o machismo que insiste em morar nas cozinhas, o que me fez lembrar de uma moça e do seu esposo “justo” e boa pinta.

Eles tinham um acordo. Ela fazia o arroz, o feijão e uma saladinha. Ele, a mistura. Na louça, revezavam. Dia sim, dia não. Ele até cumpria o combinado, demorava um bom tanto, mas lavava.

Numa certa terça-feira, era o dia dela. Fez sua parte, lavou cada prato, copo e talher. Pia intacta, rodinho passado, cozinha com cheiro de limpeza. Pouco antes de anoitecer, saiu para caminhar. Quando voltou, uma hora depois, encontrou sete pratos sujos, vários garfos e colheres de tamanhos diferentes, três panelas gordurentas, duas frigideiras oleosas, quatro xícaras empilhadas e uma mesa com tanto farelo que daria para reconstruir uma baguete inteira.

Sem constrangimento nenhum, na sua simplicidade de bom moço, o rapaz disse que tinha feito um lanchinho de fim de tarde para ele. Como não era o seu dia de lavar, achou que não precisava ajeitar nada.

Sentindo o trato escorregar pelos dedos, ela decretou:
– Daqui pra frente, cada um lava o que usar.
Ele retrucou na hora, quase como punição:
– Então cada um faz a sua mistura também. E aquele café que eu faço todo dia cedo, antes mesmo de você acordar, vou fazer só pra mim.

E assim ficou. Cada um faz o seu, lava o seu, come o seu. Pareciam viver numa república.
Ele passou a sentir na pele o que era lavar vários pratos, talheres, copos e panelas de um simples lanchinho diário, mas não deu o braço a torcer e permanece, dia após dia, na sua lavação silenciosa, agora bem menor do que antes, porque percebeu que exagerava um pouco. O café dela não era o melhor do mundo, ainda assim valia mais que ajeitar bagunça alheia dia sim, dia não. Se virava com praticidade, assim mantinha sua parte organizada.

Não sei bem o que seria da resposta desse casal se estivessem nessa terapia ao serem questionados sobre três coisas que os fariam felizes. Talvez eu chutaria: menos exageros, mais compreensão e uma boa pitada de bom senso, descritos em simples tarefas do dia.

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