O patrão sem eira, nem beira

Edmunda conheceu Estofênia em um shopping popular num dia de promoção de Black Friday. As duas se esbarraram em uma loja de magazine numa disputa para saber quem levaria a última chapinha de cabelo. Tiveram que passar por uma prova, até que Estofênia levou a melhor e conseguiu ter o seu tão sonhado liso seboso diário. Sim, ela ganhou.

Embora tivessem tido atritos nesse dia, viraram amigas, tão amigas que Estofênia convidou Edmunda para participar de uma entrevista na metalúrgica em que trabalhava – ela supervisionava toda a empresa e sempre foi muito querida por todos.

Depois de passar por alguns testes, Edmunda foi escolhida para trabalhar no setor de acabamento. Precisava estar atenta a tudo, pois todo o processo de finalização passaria pelas suas mãos, ou seja, nada poderia dar errado e qualquer problema deveria ser direcionado à Estô, braço direito do dono da empresa, o Jeusualdo, enviuvado, sem filhos, nem herdeiros – isso era o que todos sabiam do pobre rico solitário.

Com personalidade forte de quem não gostava muito de receber ordens, Edmunda se incomodava um pouco de ter a supervisão e cobranças intensas da chefe geral, que não admitia nenhum erro de produção.

Sim, Estofênia era um doce de criatura, acolhedora e muito querida por todos, mas nada podia dar errado na empresa que ela virava uma fera, doesse a quem quer que fosse.

Inconformada por ter que se subordinar à amiga, Edmunda passou a se incomodar com tudo o que Estô dizia. Mas ela precisava desse emprego, era o seu ganha pão, não podia vacilar com a chefe.

Edmunda iniciou uma raiva constante da chefe, não suportava mais chegar perto daquela que lhe deu a mão. Até mesmo sua derrota na disputa de quebra de braço em meio à loja lotada naquela promoção imperdível vinha em sua mente. Ela não queria perder mais nada para a amiga e passou a vislumbrar o seu cargo. Sim, queria ser a chefe geral, a manda chuva, aquela que não faz nada e só dá ordens. Não é que a moça só pensava nisso dia e noite, noite e dia?

Festinha na empresa, comemoração de aniversário do viúvo Jeusualdo. Edmunda não pensou duas vezes, tratou de colocar logo o seu vestidinho vermelho mais curto e colado, tão colado que mal conseguia sequer sorrir para o zíper não arrebentar. Meteu logo um batom bem forte nos lábios e sem que ninguém percebesse passou a se insinuar para o patrão, que não resistiu à tentação e acabou acordando com a mulher num quarto de motel.

O expediente tornou-se algo mais prazeroso para a operária, que aproveitava seus horários de descanso para fugir até o almoxarifado, vestiário e mesmo à copa para se deleitar com Jeusú. Ela nem gostava muito do desempenho do cara, mas sabia que todo esse esforço valeria a pena.

_Não vejo a hora de mandar essa energúmena embora daqui e ser a dona dessa espelunca toda, dizia a funcionária para si mesma.

O tempo foi passando e Edmunda colocando cada vez mais seu plano em prática. A moça já se imaginava sentada numa cadeira giratória da diretoria executiva dando ordens pra lá e pra cá, a começar pela “amiga” chefe. Sonhava com esse momento e depois com a entrega de uma cartinha de demissão à tal colega.

E assim o fez. Numa manhã de início de labuta a moça chegou atrasada ao trabalho e antes mesmo de levar uma bronca da chefe a demitiu, ao passo que Estô, sem entender nada, riu da situação e decidiu demiti-la por desacato.

Com ar de primeira-dama do pedaço, Edmunda a enfrentou e abriu o jogo, ordenando que a então chefe fosse para o olho da rua, mas antes noticiou a todos os presentes quem seria a nova patroa de todos e mãe do filho de Jeusualdo, ao passo que o mesmo levou um susto e os demais também.

O homem empalidou, feito papel e arregalou os olhos frente à Estofênia, dizendo a ela que não era nada do que estava pensando.

O que ninguém sabia é que quem mandava naquela espelunca era Estô, que mantinha um segredo com Jeusú, sendo ela a verdadeira dona da empresa. Além de seu amante, ele era seu subordinado na indústria e um pobre zero à esquerda, sem eira, nem beira, mas que ela amava mesmo assim.

Estupefata com a notícia, Edmunda não conteve os xingamentos direcionados ao pseudopatrão antes de ser retirada à força pelos seguranças do local – ela e ele.

(Imagem: Freepik)

A variante do bordel

A pequena e pacata cidade de Paraguape do Sul amanheceu em alvoroço quando os moradores acordaram com a notícia da infestação de uma variante pegajosa e extremamente contagiosa descoberta dentro do único prostíbulo local.

Anteonardo ainda estava na cama quando leu a matéria no Troçobuqui, a rede social mais acessada no município – uma espécie de Guaraná Jesus para os maranhenses.

Segundo a informação, que chegou como forma de plantão com direito a vinheta assustadora e tudo mais, o caso era sério e exigia muito cuidado, pois a doença era passada pelo ar, pela pele, pelos objetos e um dos primeiros sintomas era uma coceira sem fim, daquelas que nem um banho na banheira de gelo amenizaria.

Sintovalda estava tranquila com o anunciado já que seu marido, o Anteonardo, era um santo, um exemplo para a família e amigos. A rotina do cara era sair de casa e ir para o trabalho e vice-versa.

Só que naquela fatídica manhã, o dito cujo mal conseguia sair da cama. Começou a sentir uma coceira sem fim. Num misto de autotortura e desespero, sequer podia encostar uma unhazinha em sua pele para não deixar a esposa com a pulga atrás da orelha. Quase morreu, tamanha coceira.

Bolhas esverdeadas por todo o corpo e rosto também se formariam no terceiro dia de contágio, evidenciando aos demais a prova da contaminação, o que para muitos seria a concretização dos fatos e, por consequência, uma possível emboscada rumo ao cadafalso.

Quem também estava prestes a se deparar frente a frente com a guilhotina era Stefanildo. Ao contrário de Anteonardo, esse não conteve a comichão, coçando o corpo inteiro frente à mulher, que também tomou ciência da origem do tal vírus da casa vermelha.

Genival, Cremilson, Zaías e Damielvison começaram a sentir os mesmos sintomas. O terror estava à solta. Além do medo do que mais essa doença viria a causar, o maior temor era a descoberta das esposas Albertina, Fia, Carmeliana e Josvênia.

Carmeliana não era muito adepta da rede social, mas gostava muito de conversar na calçada com as outras três mulheres. Zaías tratou logo de falar para a mulher que um vírus aterrorizante pairava na cidade e que ninguém poderia sair de casa, nem sequer a abrir a janela de casa por quarenta dias.

Damielvison, que acorda sempre antes da esposa, deixou um recadinho para a mulher avisando que teria que trabalhar por um mês em outra cidade e picou a mula.

Já Genival e Cremilson não tiveram muito o que fazer, o primeiro foi logo se desculpando dizendo que não era nada do que Albertina estava pensando e que apenas foi ao inferninho do piscante vermelho prestar seu serviço como eletricista. Cremilson teve que se virar e se coçar sozinho depois de Fia, a companheira, jogar suas roupas e o próprio pela janela da casa térrea.

Aos que disfarçaram a coceira, ainda havia uma luz no fim do túnel. Para não passar para a segunda fase da doença, bastava esfregar o corpo inteiro com um sabonete manipulado por uma indústria de uma cidade vizinha, cujo dono era sobrinho do prefeito de Paraguape do Sul.

A procura foi tamanha que foi necessário reabastecer duas vezes as farmácias locais.

Até mesmo os insumos para a produção do produto haviam acabado e a fábrica parou de produzir o tal remédio milagroso. O sobrinho do prefeito passou a rir à atoa, não tinha sequer um sabonetezinho nas prateleiras.

Descobriu-se depois que tudo não passou de um boato para vender os tais sabonetes, sob a promessa de uma rechonchuda propina ao tio político, com pequeno percentual à rede social, que também pertencia à família do prefeito.

Quarenta dias se passaram. Margô, a cafetina, que já não tinha mais clientes, teve que fechar seu ganha pão. Sob forma de recompensa pelo prejuízo causado, as “primas” do bordel passaram a receber um auxílio emergencial da prefeitura de Paraguape do Sul com verba retirada da Educação das criancinhas.

Para comemorar o fim daquilo que nunca aconteceu, o pastor da única igreja da cidade chamou toda a comunidade para participar de um culto com a presença do mais elevado membro da entidade, o dono da bola, digamos assim, bispo Erveraldo, recém-chegado do exterior.

No dia seguinte, outro plantão alertava a todos os fiéis sulparaguenses sobre a existência de um vírus assustador trazido pelo ilustre convidado.

Cinco dias seriam o suficiente para a lambança toda. Apenas um antídoto resolveria o caso. Para agilizar todo esse processo e deixar a cidade inteira a salvo, o pastor já teria negociado a compra do remedinho para revender a toda a população.

Que Deus abençoe esse pastor visionário e família, que inclui a esposa do prefeito.

(Imagem Freepik)

Eteobalda, Anacleto, Jessi e o desgracento da corrida

O dia que Eteobalda, também conhecida como Baldinha, se casou foi uma grande festa na pacata cidade de Itamaraguá.  Anacleto, o noivo, era o homem mais feliz do mundo e não fez cerimônia em bancar todo o casório, com direito a boi no rolete, muita cachaça e cerveja à vontade aos convivas, gente de toda a parte do pequeno vilarejo onde moravam.

Do lado oposto do mapa, outra cerimônia acontecia, essa simples, sem muita celebração. Foi o dia em que Jessicleide, grávida de sete meses, disse sim ao marido, Amarildo.

Os anos passaram, filhos nasceram, cresceram e o tranquilo e distante lugarejo ficou pequeno demais para a Anacleto e família. Bem-vindos à cidade grande.

Eteobalda, que jamais havia saído de perto do seu povoado, se assustou com tamanha agitação da nova morada, mas aos poucos se acostumou e tomou gosto pela nova vida. Quis se profissionalizar e trabalhar. O esposo aceitou, mesmo a contragosto, porque na sua visão, mulher tem que servir o marido e o marido dar sustento pra mulher – e ponto.

Mesmo vivendo em local moderno, sem sequer um paralelepípedo, quiçá uma estradinha de terra aqui ou acolá, Anacleto não deixou de lado a tradição de cavalgar pelas movimentadas ruas de asfalto com o seu potente e belo animal. Há que diga que gostava mais dele do que da própria esposa, com quem era hostil algumas vezes. O homem chamava a atenção de todos por onde passava com aquele belo e bem tratado cavalo. A mulherada, então, se derretia quando o rapaz, de bigode ferradura e minguados fios no couro cabeludo, cobertos por um chapéu branco de palha, a combinar com a cor dos sapatos, passava pela cidade.

Numa dessas cavalgadas, Anacleto se deparou com um grupo de maratonistas a sua frente, em uma tradicional corrida de rua. Saiu encantado com tudo o que viu, em especial um par de olhos cor de mel.

Assim que chegou em casa, contou a novidade para a mulher, sem mencionar o motivo maior de seu êxtase, claro.

A narrativa foi tão convincente que Baldinha quis ver de perto como era uma maratona e logo se apaixonou. Decidiu correr e passou a fazer parte daquele grupo de corredores, que tinha como líder um sujeito de apelido Grandão, dada a sua estatura e corpo sarado – era o Amarildo. Sua esposa, Jessicleide, também corria e logo se tornou a melhor amiga daquela simples mulher do povoado distante, de gente humilde, simples e acanhada.

Eteobalda nunca se manifestava para ninguém, mas vivia uma ansiedade diferente das demais mulheres à sua volta. Talvez quisesse fazer tudo o que nunca fez em sua cidadezinha, ao contrário do marido, que jamais deixou de satisfazer todos os seus anseios. Uma desconfiança sempre pairava na mente dessa mulher. Nunca ninguém disse, mas ela sabia que por trás daquele bigode grosso havia um ser por ela desconhecido.

Mas a troca de cidade também mudou a vida de Baldinha. Ela passou a se arrumar, a se cuidar, a malhar na academia, por coincidência a mesma que Amarildo treinava diariamente pela manhã.

Os dias dessa mulher passaram a ser mais coloridos, mais alegres, muito mais animados que outrora. Fizesse chuva, frio, sol ou calor, lá estava ela todo dia frente ao espelho, que refletia a imagem do corpo musculoso do esposo de Jessi. O suor caía sobre Baldinha, ainda que quase não fizesse nenhum esforço para levantar sequer dois quilos de peso. Era emoção, hormônio, calor intenso, sei lá…

Jessicleide não se incomodava com as atividades extras do marido, ao contrário, sempre apoiou o fiel e amado companheiro. Na verdade, ela até gostava, pois era o momento em que conseguia ter um tempinho só dela para sair, descansar e fazer outras atividades.

Já Anacleto não gostava muito das andanças da esposa. Passou a seguir os passos de Eteobalda e a bisbilhotar suas conversas no celular, mas nada encontrou. Ela, por sua vez, ainda que sem querer, soube que o cara estava de caso com alguém, só não sabia quem – e nem queria saber, tudo o que Baldinha queria era se vingar. Não, ela não ia matar o sem-vergonha, colocar fogo em seu carro ou jogar suas roupas todas rasgadas pela janela. Só queria dar o troco com a mesma e prazerosa moeda.

A envergonhada e acanhada moça pacata deu lugar a uma mulher forte, sensual, dona de si, que passou a dar em cima do saradão da academia. Só o que ela precisava era se vingar, assim ela pensava – esse era seu argumento sempre que se lembrava que o moço que seria usado nessa empreitada pérfida era o esposo de Jessi, sua nova e melhor amiga.

Seguro de sua virilidade e que a amada se mantinha fiel e dedicada, Anacleto seguiu sua vida, até que um dia se deparou com um bilhete deixado na cela do seu companheiro de passeio: “Ô cara, acorda que sua mulher tá te traindo, deixa de cê besta, otário”.

O homem empalidou, feito papel, gaguejou umas palavras falando sozinho, passou a mão no bigode, ajeitou o chapéu e seguiu a cavalgar atrás de Eteobalda pela cidade. Foi até a corrida que ela participaria, mas nada dela estar por lá. O líder do encontro também não estava.

Com expressão cansada de como quem correu meia maratona, Baldinha chegou em casa, deu um beijo em Anacleto e seguiu para o banho, mas antes deu uma olhadinha no celular, um sorriso discreto para a tela e esqueceu o aparelho ligado.

Os olhos do marido dilataram quando viu o telefone ali, frente e frente com ele. Não pensou duas vezes e foi ver com quem a moça acabara de conversar.

“Adorei a tarde, gostosa”.

_ Epa, epa que eu conheço esse filho da mãe, esse cara é aquele desgracento da corrida _ disse, furioso, o marido chifrudo.

Assim que saiu do banho, Baldinha teve que se explicar sobre a mensagem do celular e acabou contando toda a verdade a Anacleto. Ela revelou que assim que descobriu as traições do marido resolveu dar o troco.

Furioso com a traição da mulher com o bonitão da corrida, Anacleto foi até um rapaz que faz faixas instantâneas, daquelas para pendurar na rua, de cabo a rabo, e mandou escrever:

“A safada da minha mulher, Eteomilda, está me traindo com o desgramado do Amarildo, pronto, falei”.

Ao fim da prova, todos participantes voltaram para o ponto inicial para celebrar o evento e se depararam com a mensagem, inclusive Jessicleide, que entrou numa crise frenética de soluço, tamanho nervosismo e fúria.

Amarildo afirmou de pé junto para a esposa que não fez nada e que tudo não passava de mentira daquela “doida varrida” da Eteobalda, segundo ele.

A decepção de Jessi com o marido foi tamanha que a mulher resolveu mudar de vida. Colocou a casa à venda e foi morar na pequena e pacata Itamaraguá com seu novo amado. Ninguém sabia, mas Jessicleide também pulava a cerca com outro rapaz há algum tempo – um certo bigodudo recém-chegado na cidade. Ela jurou que não sabia que o cara era o marido de sua melhor amiga.

Já Amarildo, certo de que viveria paixão avassaladora com a amante para o resto de suas vidas, perdeu o posto para outro colega da corrida. Deixou as atividades físicas de lado e agora se dedica aos campeonatos de dominó com o C.A – grupo de cornos assumidos.

(Imagem: Freepik)

Queda cupida

Sofia e Antenor eram um casal apaixonado. Ele, violinista, spalla de uma famosa orquestra sinfônica e músico de cerimoniais e ela, professora de inglês de uma rede de franquia. Viviam um conto de amor.

Mas os gostos de ambos nem sempre batiam. Antenor não gostava muito de sair. Volta e meia tinha um ensaio ou um concerto para se apresentar em algum teatro, o que já tomava parte do seu tempo. A namorada ia junto, a contragosto, já que não aguentava mais ouvir Beethoven, Bach. Mozart, Verdi e outros dessa linha. O que ela gostava mesmo era de um bom pagode e um churrasco com os amigos, aliás, tinha o samba no pé.

Só que os pés da menina sequer pulavam para o quintal de casa desde que começou a namorar com Antenor. Às vezes ela parava para perguntar o motivo de estar com o rapaz se as diferenças eram enormes – talvez o sexo seria a motivação maior, sintonia e sinfonia perfeitas.

As saídas da professora se limitavam à casa do namorado e às apresentações do amado. Essa vidinha sem graça de ouvir música clássica e erudita já não mais a agradava, aliás, nos últimos encontros musicais a moça dava um jeitinho de levar às escondidas um fone de ouvido para escutar seus sambinhas preferidos enquanto a plateia se deleitava de prazer com toda aquela barulhada suavemente sincronizada.

Sofia passou a procurar algo realmente interessante para fazer. Seu desejo latente sempre foi ser passista de escola de samba, mas isso seria demais para o mocinho ciumento, que mal a deixava sair com as amigas para um arrasta-pé ao som de tamborim, pandeiro, reco-reco, cavaquinho, uma boa caipirinha e muitas risadas.

Mas ela precisava dar um sacode na vida, um chega pra lá no tédio, fazer alguma coisa, se sentir livre, leve e solta, como se estivesse em um desfile de escola campeã.

Resolveu, então, fazer algo para se exercitar. Comprou um par de patins e fez uma surpresa para o namorado, dando a ele um modelo igualzinho ao seu. Só o que a jovem jamais esperava era a reação do bonitinho.

_ Você não sabe que eu sou artista, o principal da orquestra e que não posso me machucar? _ esbravejou o “astro-mor” das cordas.

Com receio de se acidentar, Antenor jamais praticava esportes, tampouco os que poderia causar algum dano em seu braço, punho, mão ou dedos, suas maiores e mais valiosas bases de trabalho. O medo era tamanho que o músico fez uma apólice de seguro desses membros para garantir que nenhum mal o aconteceria em caso de algum incidente qualquer mas, na dúvida, preferia evitar qualquer risco, motivo pelo qual se excedeu ao receber o mimo.

Passada a decepção da mulher, que entendeu a preocupação do rapaz, só não a rispidez ante a surpresa do regalo, decidiu curtir sozinha o brinquedinho e pegou de volta o presente dado ao belezura.

Os fins de tarde passaram a ter um ar diferente na vida da moça, que ganhou gosto pela patinação e já arriscava algumas manobras diferentes. Ela estava tão alto-astral que até os desagradáveis concertos do namorado tornaram-se mais amenos aos seus ouvidos.

Só quem não parecia se agradar muito era Antenor, que se incomodava ao ver a empolgação da namorada em sua atividade esportiva e saber das novas amizades da moça. Passou a controlar a amada com um aplicativo que mostrava seu percurso e tempo de atividade e movimento. Sim, ela tinha que mostrar para ele seu desempenho esportivo.

Para tentar impedir suas saídas diárias, o musicista teve a ideia de esconder o capacete da querida, item necessário de proteção no quesito segurança a quem anda sobre rodinhas.

Ocorre que o entusiasmo de Sofia era tamanho que mesmo sabida de o quanto poderia se prejudicar sem o tal equipamento resolveu sair para treinar um pouco.

Tudo caminhava e caminharia perfeitamente bem, não fosse o asfalto rachado de material de quinta categoria da empreiteira que venceu a licitação do recapeamento do parque que a bela curtia seu brinquedo preferido. Maldito prefeito, que se fez de cego, surdo e mudo nessa empreitada de qualidade duvidosa. Enfim, parafraseando o sábio Nelson Rodrigues, Sofia beijou o asfalto. Sim, desequilibrou-se com os seus patins naquele mar de propina….

Sem sequer conseguir sair do lugar, e zonzinha da Silva, a moça se deu conta de que não poderia ter saído de casa sem o tal protetor, mas como diria Luís de Camões em “Os Lusíadas”, já era, fia, “agora Inês é morta”, caiu, levanta e vai atrás do prejuízo.

Com muita dificuldade e corpo dolorento, Sofia entrou em um pronto atendimento médico e somente depois de quase duas horas foi atendida por um rapaz ruivo, de sardinhas no rosto, olhar sério e fala ríspida.

_ Olá, mocinha! Já sei o que aconteceu. Que bonito, hein! Você acha que pode pegar um par de patins, sair por aí feito uma doida, de qualquer jeito, sem capacete e se esborrachar toda? Tá achando que a sua cabeça é coco? Não é, não. E olha quanta gente aqui pra eu atender. Da próxima vez, se for pra esquecer o juízo, nem sai de casa.

_Olha aqui, senhor enfermeiro, eu não vim até essa espelunca para ouvir sermão de ninguém. Tudo está doendo muito, não consigo mexer a mão, mas quer saber de uma coisa, vou embora daqui.

_ Quietinha que você já aprontou muito por hoje, não acha? Fica aqui, sentadinha, vou fazer um raio X mas já deu pra ver que também torceu o pulso. Acha que vai resolver isso onde, na padaria, no açougue? Para de reclamar que eu já te atendo.

Ela já não sabia se ficava ou esperava, mas a dor era tão grande que resolveu ficar por lá.

Trinta minutos depois, o mesmo profissional atendeu a moça, que teve que imobilizar o antebraço.

_ Por sorte não foi nada grave. Só mesmo o pulso. Quinze dias de molho, sem sequer olhar para o patins, fui claro? _ ordenou o ruivo.

Com os nervos mais amenos, os dois conversaram por alguns minutinhos e descobriram que eram amigos de infância. A empatia passou a reinar no recinto e os dois até trocaram contatos, segundo o moço das sardinhas, para saber sobre a evolução da recuperação.

Assim que foi liberada no pronto-atendimento, Sofia seguiu para a casa do namorado, que não conteve a cara de felicidade ao ver a amada impossibilitada de andar por aí livre, leve e soltinha sobre suas rodinhas.

O tédio da moça aumentava a cada dia. Lembrou-se do enfermeiro estressado e passou a conversar com ele vez em quando em mensagem de celular.

Os tão esperados quinze dias se passaram e Sofia foi retirar o gesso do braço. Eis que o não mais bravo rapaz foi quem a atendeu novamente. Papo vai, papo vem, não é que a recém-patinadora convenceu o cara a dar uma voltinha de patins? Emprestaria a ele o presente que seria do namorado, que continha todos kit de proteção, e disse que ensinaria os primeiros passos, ao passo que ele topou o desafio.

Aula vai, aula vem, os dois passaram a se conectar cada vez mais, até que, enfim, findou o namoro morno da jovem com a estrela das notas musicais.

A nova dupla de patinadores passou a curtir cada vez mais as aventuras do esporte e, após descer uma ladeira daquelas de dar um friozinho na barriga de qualquer veterano, o ruivo ajoelhou-se de frente para a bela, tirou do bolso uma caixinha contendo um anel de noivado e declarou seu amor, pedindo a namorada em casamento, que sem titubear aceitou na hora.

No dia do casório, tudo pronto, capela arranjada com flores do campo, as preferidas de Sofia, e um presente surpresa do noivo, uma entrada triunfal, ao som do samba predileto da noiva, tocado por um renomado musicista, contratado pela cerimonialista do evento.

Sem saber quem era aquela mulher toda branco, véu e grinalda, com ar de pessoa livre, leve e solta, seguindo em passos lentos em direção ao futuro esposo, estava Antenor, tocando, a contragosto, uma música bastante diferente das de seu costume e preferência.

Assim que a música parou, o violinista se deu conta de quem se tratava naquele altar. Visivelmente atordoado, pegou seu violino e saiu, afoito, rumo a qualquer outro lugar que não fosse aquele ambiente alegre. Ao descer a escadaria, tropeçou e caiu sobre um dos braços, o que lhe resultou em uma licença de seis meses de trabalho.

Lembra do seguro do rapaz? Pois bem, vencera três dias antes do incidente e o pobrezinho esqueceu de renovar. O capacete da ex? Queimou e jogou as cinzas no rio.

(Imagem: Freepik)

Quatro dias de sexo no acordo pré-nupcial? Não é muita coisa não, Jennifer?

Eteomilda faz de tudo para chamar a atenção do marido. Doze anos de casados, já viu, nem sempre o cara está de prontidão pra saciar os desejos da esposa. E quando isso acontece, é a vez de ela não estar muito afim, pinta uma dor de cabeça, um sono, entra naqueles dias e assim vai a vida conjugal dos dois, rumo ao décimo terceiro ano de enlace, regada a reality shows, filmes, conversas nos grupos de celular, muito trabalho, crianças para cuidar e o cachorro a tiracolo.

Quando se casaram, num sábado junino frio, numa cidadezinha do interior, fizeram juras de amor, daquelas que todo mundo faz pra seguir a tradição. Nesse pacote de juramento, prometeram fidelidade, cumplicidade e união, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza etc. Naquela época era isso que se prometia, com dedos cruzados ou não, mas enfim, a promessa era feita. Se cumpriram à risca? Não se sabe e é melhor deixar para lá, porque a pauta aqui é outra, senão a demanda em questão vai por água abaixo e a torcida aqui é pela felicidade da Eteô.

De dozes anos pra cá as coisas mudaram um pouco. Os juramentos selados nos enlaces agora são outros. Há quem exija em contrato quatro dias de sexo na semana. Ah, se Eteomilda tivesse tido essa ideia antes, não é mesmo? Mas é melhor deixar o passado de lado, até porque tem dias que ela não quer nem ver a cara do cara e vice-versa.

Pois bem, deixemos os dois de molho, tal qual tem sido a vidinha de ambos, para falar de uma dupla famosa e milionária, bem distante dessa realidade humilde e pacata, que resolveu incluir no acordo pré-nupcial essa exigência íntima um tanto quanto inusitada.

Sim, o assunto em destaque é o casamento de duas pessoas mundialmente conhecidas. Ela, uma linda cantora, e ele, ator estupendo. Será que vão dar conta desse pacto? Alguém avisou a essa noiva da existência da menô (pausa para muita coisa) e que essa insiste bagunçar um pouquinho o coreto? Quatro dias da semana? Não sei, não. E o artista milionário, será que está ciente que nem sempre as coisas caminharão a mil maravilhas, que às vezes um simples friozinho a mais coloca tudo a perder e bau-bau cumprimento de artigo X, inciso Y?

Precisava registrar em cartório? Ao que consta, a proposta surgiu da esbelta e charmosa mulher, numa súbita necessidade de garantir dias de glória ao lado do amado na mansão comprada pelos dois pela bagatela de cinquenta milhões de dólares.

O que não se sabe é a validade desse documento fogoso. Fico só imaginando a cobrança de um dos dois já no terceiro dia da semana e nada de sexo, sim, isso é normal gente, e acontece nas melhores famílias. No quarto dia, terão de cumprir com o que consta no documento nos próximos, em datas ininterruptas. E as dúvidas fluem um pouco mais: como será a agenda desse casal?  E as viagens de negócios, gravações, enfim, será que o acordo inclui experimentos virtuais do casal? Se sim, ok, tá tudo certo.

Tá, mas e a Eteomilda que não fez nenhum trato com o marido, está louquinha para fazer jus a pelo menos um diazinho no mês e nada de Eteobaldo comparecer, qual seria a solução para essa mulher, gente? Não faço ideia, se fizesse, aplicaria para mim.

E você, se pudesse reaver seu contrato nupcial ou fazer um agora, qual seria a cláusula que não poderia faltar de jeito nenhum? Eu faria um ajuste automático de revisão a cada cinco anos. Quatro. Não, três. Vai, um ano. Ou melhor, não casaria.