Crônica da crônica “Churrasco com injeção de graça, topa?”

Pouco tempo atrás, escrevi uma crônica satirizando um modo um tanto quanto inusitado de uma família, vista aos meus olhos como hipocondríaca. Não sobra ninguém, nem o pequeno de dez anos que, num simples arranhão ao brincar descalço no fechado e protegido corredor de casa clama por assistência médica. Rememoro aqui o tal texto, mas agora com um discreto e inimaginável complemento ao final.


De graça até injeção na testa. Você já deve ter ouvido essa frase em alguma fase da sua vida. Vai, confessa que tu és desse tempo.
Não por acaso, lembrei-me disso hoje, num churrasco em família. Não apenas pautada como o assunto do fim da festa, a ação foi colocada em prática. Calma que você vai entender, pode não compreender muito bem, como eu, mas vou explicar.
O evento, regado a muita carne, salada, arroz e feijão, teve um ingrediente a mais, um tanto quanto inusitado, ao menos para mim.
Sim, nádegas para fora e uma picada. Quem vai querer?
Em meio às sobremesas, ainda saboreadas entre alguns presentes, uma pequena fila ia se formando num corredor de fundo da a casa. Como todo início de fim de festa, num primeiro momento toda aquela euforia me parecia a entrega de algum brinde, uma lembrancinha, ainda que não fosse uma comemoração de aniversário, bodas ou data específica, apenas um encontro.
Sei que boa parte dessa família gosta de um bom papo sobre fármacos, falar sobre suas próximas consultas a diversos especialistas, escolhidos a dedo no caderninho do convênio, exames por fazer, preço de analgésicos, qual o queridinho do momento, as novidades dos laboratórios, enfim. Mas, oferecer injeção aos presentes, isso foi novidade.
_ Vem também. Faz bem. É bom. É vitamina. B12. É boa para a memória, para o cabelo, para as unhas, para a pele, tira o cansaço, melhora o humor. Dói só um pouquinho – disse-me uma das parentes, empolgada com a picada recém levada.
Preferi repetir a dose da salada de frutas, além de gostosa, também contém uma série de benefícios e, melhor, nada dolorosa.
Temo o teor do próximo evento, o que virá pela frente?

Passados alguns meses, após a chegada da Menô… pausa para uma inesperada decisão.
Novo encontro de família, churrasco, doces e o indispensável bolo de chocolate com recheio e cobertura de chocolate.
Nada disso se tornou tão desejado quanto uma boa aplicada de vitamina B em minhas nádegas.
_ Vamos lá, qual lado da bunda você prefere? _ pergunta a parenta aspirante a enfermeira, aplicadora costumaz dos encontros aleatórios.
_ Esquerda, sempre.
_ Até nisso, sua esquerdalia? Por que você não vai pra Venezuela?
_ Posso até ir, mas antes me aplica essa joça, pelo amor de Deus.

Namastê

Namastê

Poxa, vida, você penda que é quem? Chega assim, sem bater? Não toca a campainha, o interfone, sequer avisa antes que vai chegar…

Entra, feito invasora e faz o que bem entende, cegamente? Sim, você é cega e deve se fazer de surda também.

Você deveria entender vez por todas que não se leva uma pessoa boa daqui.

Você é sarcástica, má, cruel, feia e tem inveja da vida e faz de tudo pra fazer dela um sopro, uma folha que voa e vai embora sem ao menos poder dizer adeus.

E você, menina vida, por que deixa isso acontecer? Seja forte.

É a gente nunca vai entender. Então, o que nos resta é respirar a cada dia, agradecer a cada dia. Não apenas amar, mas deixar esse amor fluir, transparecer. Visitar, brindar, curtir, sorrir e gargalhar até morrer de tanto rir.

Hoje o mundo terreno perdeu uma luz e o celestial se fortaleceu.

Namastê, aprendi, não em vão essa palavra com você.

Veja mais contos, crônicas e outros gêneros aqui.

(Texto da escritora e jornalista Claudia Rato – Imagem: Freepik)

Churrasco com injeção de graça, topa?

De graça até injeção na testa. Você já deve ter ouvido essa frase em alguma fase da sua vida. Vai, confessa que tu és desse tempo.

Não por acaso, lembrei-me disso hoje, num churrasco em família. Não apenas pautada como o assunto do fim da festa, a ação foi colocada em prática. Calma que você vai entender, pode não compreender muito bem, como eu, mas vou explicar.

O evento, regado a muita carne, salada, arroz e feijão, teve um ingrediente a mais, um tanto quanto inusitado, ao menos para mim.

Sim, nádegas para fora e uma picada. Quem vai querer?

Em meio às sobremesas, ainda saboreadas entre alguns presentes, uma pequena fila ia se formando num corredor de fundo da a casa. Como todo início de fim de festa, num primeiro momento toda aquela euforia me parecia a entrega de algum brinde, uma lembrancinha, ainda que não fosse uma comemoração de aniversário, bodas ou data específica, apenas um encontro.

Sei que boa parte dessa família gosta de um bom papo sobre fármacos, falar sobre suas próximas consultas a diversos especialistas, escolhidos a dedo no caderninho do convênio, exames por fazer, preço de analgésicos, qual o queridinho do momento, as novidades dos laboratórios, enfim. Mas, oferecer injeção aos presentes, isso foi novidade.

_ Vem também. Faz bem. É bom. É vitamina. B12. É boa para a memória, para o cabelo, para as unhas, para a pele, tira o cansaço, melhora o humor. Dói só um pouquinho – disse-me uma das parentes, empolgada com a picada recém-levada.

Preferi repetir a dose da salada de frutas, além de gostosa, também contém uma série de benefícios e, melhor, nada dolorosa.

Temo o teor do próximo evento, o que virá pela frente?

Todos queriam passar em frente só para ver a senhorinha

A senhorinha beijoqueira dos cabelos de algodão

Todos os dias, Gilcelânea fazia questão de caminhar em sua rua só pra ganhar um beijo, ainda que de longe, da simpática senhorinha dos cabelos de algodão.

Ao contrário de todas as casas, a sua, de número 42, era a única que floria, ainda que não fosse tempo de florir.

Mal cabiam as flores, que precisavam ser levadas dia a dia por um carrinho de mão, que de tão belo, parecia mais uma decoração do que objeto de construção.

Era batata, bastava dar alguns passinhos e lá estava dona Hermenegilda de plantão, à espera de mais um alvo. Seu beijo era certeiro, atingia bem no fundo da alma de quem por lá passava.

Alguns dias se passaram. Aquele jardim, que mais parecia um arco-íris de tão colorento deu lugar a um marrom seco e espinhento.

Não havia mais rosas, não havia mais beijos. A velhinha se foi, sem ao menos se despedir. A caminhada de Gilcelânea agora andava a passos largos, duros e sem graça.

(Imagem criada por meio de IA do ChatGPT / Conto inspirado em fatos reais, escrito pela jornalista e escritora Claudia Rato, autora do livro de contos Pra mim você morreu. Hé uma versão em vídeo desse conto, narrada pela autora, em sua conta no TikTok)

Moça responde rapaz chato com palavras diferentes

Ser desumilde: desaplaudindo o rapaz

Escuta aqui, ô Raul, a partir de hoje estou “desaplaudindo” você, você é um ser “desumilde”, não sabe “coisar” nada, não tem coragem de passar uma “bassoura” no chão, só sabe reclamar da minha “berruga” na testa e não vê que eu sou uma mulher “trabalhadeira”. E não adianta me chamar de “coronela”, eu sou é uma “giganta” perto de você, quando eu quero, sou doce como “méis”. E nem venha ”assoviar” aqui no meu ouvido me chamando de benzinho porque igual a você tem outros “Rauis” correndo atrás de mim. Tô fora, meu bem, quero paz no coração. E quer saber, eu sou uma mulher “chiquíssima” e você não me merece. E digo mais, “vai te catar”.

Ela está certa?

Certíssima porque todas as palavras estão ditas da forma correta, vamos ver?

Desaplaudindo é o contrário de aplaudir.

Desumilde é o antônimo de humilde.

Coisar, considerada uma palavra para suprir um verbo que, por lapso ou ignorância, a pessoa esqueceu o nome

Bassoura existe oficialmente, sendo mais falada de modo informal

Berruga. Embora soe estranho, é o mesmo que verruga, sendo uma palavra abrasileirada

Trabalhadeira é o feminino de trabalhador

Coronela é o feminino de coronel

Méis, plural de mel

Chiquíssima é uma mulher muito chique

Vai te catar é o mesmo que não amole

Então, cara moça, você está corretinha e o Raul vai ter que engolir.

(Texto: Claudia Rato, autora do livro Pra mim você morreu/ Imagem: Freepik)