
Policarpo era o melhor entregador de cartas de Birituba do Norte, profissão escolhida desde criança. Ainda pequenino, lá ficava ele, em cima de um caixote de madeira daqueles de carregar frutas e verduras para avistar pelas frestas da janela da sala o trabalho do carteiro, que levava de casa em casa as tão esperadas escritas de amor, desamor, alegria, tristeza, despedida, mistérios e surpresas.
Assim cresceu, observando, dia sim dia não, o seu tão sonhado futuro trabalho. Carregar a tira colo pequenas e grandiosas histórias era para Policarpo uma magia sem fim. Logo que cresceu, tornou-se profissional, “com muita honra”, como fazia questão de dizer.
O sonho do pai era que o filho se tornasse um mestre da educação, daí a homenagem do nome do rapaz a um dos personagens de Machado de Assis em “Conto de escola”. O centrado Professor Policarpo lecionava para um grupo um tanto quanto difícil de adolescentes. Era só uma menção ao nome, nada de mais, simples assim.
Mas não teve jeito. As correspondências Policarpo carteiro queria entregar, e as entregava, uma a uma, embaixo de chuva ou de sol. Virou o funcionário exemplar, com direito a quadro de foto de meio sorriso na parede principal do galpão da empresa.
A boa conduta do rapaz ganhou um par de parênteses. Certo dia, uma carta bem cheirosa, endereçada à Cleodomira, casa 152 da Alameda dos Ipês, chamou-lhe a atenção. Olhou para o envelope e não resistiu à tentação. Abriu.
Nos dizeres, escritos por quem não via a mulher há muito, o autor, de codinome Vavá, lamentava a perda da amada.
_ Me arrependo de não a ter feito fugitiva naquela noite de São João. Sei que está casada, que nossa história evaporou, mas a cada fim de outono me recordo dos nossos encontros calorosos em meio à ventania e do frio que se achegava da nova estação.
Policarpo sentou-se, deixou a bolsa ao lado e não parou mais de ler as escritas direcionadas à casa da frente, onde a moça vivia sempre cabisbaixa, olhando para o jardim sem flor. Era nítida sua tristeza.
Embora pouco falasse com Cléo, o carteiro sabia que ela, “mulher direita”, jamais se entregaria às tais palavras de amor contidas naquela folha de papel, decerto que nem a abriria por receio de cair à tentação.
Mas a carta estava aberta, Policarpo já fez o favor de desenterrar uma história abruptamente rompida num passado distante. Uma vez lida, tinha de ser respondida, assim pensava o entregador, que não pestanejou e logo estava ele a responder, em nome de Cleodomira, com uma única frase.
Sim, também me arrependo. Lacrou o envelope e fez questão de levar mensagem até a casa de Vavá.
As correspondências para Mira não paravam de chegar. Policarpo sentava-se em um banquinho acimentado em frente ao número 152 e as lia, linha a linha, imaginando o amor perdido da pobre sonhadora que se deixou levar por uma ilusão amorosa sabe-se lá por quê.
Eteobaldo, homem fino, elegante e gentil, conquistou o coração partido da esposa, mas em pouco tempo de casados toda a finesse, elegância e gentileza deram lugar a um ser ríspido, grosseiro e insensível. Descrente de que poderia reviver tudo o que já vivera no passado, a moça deixou-se levar pela vidinha vazia e rotineira.
Para entender melhor os anseios de Cléo e tentar consertar uma história de amor que poderia ser resgatada, Policarpo passou a se aproximar da mulher, que se tornou confidente do rapaz.
_ Estamos juntos há quase uma década. Foram quatro anos de paixão, três de amor e dois de rotina. Eteobaldo está cada dia mais frio e distante _ narrou a moça.
Policarpo já estava convicto de que deveria ao menos tentar uma reaproximação da moça com o dono das cartas bem cheirosas. O olhar triste de Mira trazia luz para as escrituras do entregador. Respondeu todas as correspondências de amor em nome da jovem, sem o seu consentimento, tampouco conhecimento.
As cartas vinham e iam numa fluidez tamanha, até que um dia o carteiro propôs, numa de suas escritas passando-se pela moçoila, um encontro. Vavá topou.
Restava a Policarpo apresentar em manuscritos novo recomeço à sonhadora – e assim o fez. Entregou-lhe todas as correspondências por ele violadas.
_ Me perdoe a intromissão, não resisti. Desejo-lhe coragem_ disse, vergonhosamente cabisbaixo, o entregador.
Sem sequer se lembrar da torta predileta de Eteobaldo no forno, Cleodomira pôs-se a ler cada palavra deixada daquelas folhas perfumadas. O olhar vexado deu lugar a um brilho que não se via mais. O doce queimou.
_ Tudo é muito lindo, mas agora é tarde_ lamentou Cléo ao carteiro.
_Às sete da noite, na Praça de Santo Antônio _ disse Policarpo e seguiu sua labuta, leve e sem olhar para trás.
Os dias passaram e lá estava o carteiro a deixar a primeira e derradeira carta de Mira para Eteobaldo. Dessa vez, o exímio entregador não precisou abri-la para saber do que se tratava. Sorridente, fez questão de entregar a correspondência nas mãos do rapaz.
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