Queda cupida

Sofia e Antenor eram um casal apaixonado. Ele, violinista, spalla de uma famosa orquestra sinfônica e músico de cerimoniais e ela, professora de inglês de uma rede de franquia. Viviam um conto de amor.

Mas os gostos de ambos nem sempre batiam. Antenor não gostava muito de sair. Volta e meia tinha um ensaio ou um concerto para se apresentar em algum teatro, o que já tomava parte do seu tempo. A namorada ia junto, a contragosto, já que não aguentava mais ouvir Beethoven, Bach. Mozart, Verdi e outros dessa linha. O que ela gostava mesmo era de um bom pagode e um churrasco com os amigos, aliás, tinha o samba no pé.

Só que os pés da menina sequer pulavam para o quintal de casa desde que começou a namorar com Antenor. Às vezes ela parava para perguntar o motivo de estar com o rapaz se as diferenças eram enormes – talvez o sexo seria a motivação maior, sintonia e sinfonia perfeitas.

As saídas da professora se limitavam à casa do namorado e às apresentações do amado. Essa vidinha sem graça de ouvir música clássica e erudita já não mais a agradava, aliás, nos últimos encontros musicais a moça dava um jeitinho de levar às escondidas um fone de ouvido para escutar seus sambinhas preferidos enquanto a plateia se deleitava de prazer com toda aquela barulhada suavemente sincronizada.

Sofia passou a procurar algo realmente interessante para fazer. Seu desejo latente sempre foi ser passista de escola de samba, mas isso seria demais para o mocinho ciumento, que mal a deixava sair com as amigas para um arrasta-pé ao som de tamborim, pandeiro, reco-reco, cavaquinho, uma boa caipirinha e muitas risadas.

Mas ela precisava dar um sacode na vida, um chega pra lá no tédio, fazer alguma coisa, se sentir livre, leve e solta, como se estivesse em um desfile de escola campeã.

Resolveu, então, fazer algo para se exercitar. Comprou um par de patins e fez uma surpresa para o namorado, dando a ele um modelo igualzinho ao seu. Só o que a jovem jamais esperava era a reação do bonitinho.

_ Você não sabe que eu sou artista, o principal da orquestra e que não posso me machucar? _ esbravejou o “astro-mor” das cordas.

Com receio de se acidentar, Antenor jamais praticava esportes, tampouco os que poderia causar algum dano em seu braço, punho, mão ou dedos, suas maiores e mais valiosas bases de trabalho. O medo era tamanho que o músico fez uma apólice de seguro desses membros para garantir que nenhum mal o aconteceria em caso de algum incidente qualquer mas, na dúvida, preferia evitar qualquer risco, motivo pelo qual se excedeu ao receber o mimo.

Passada a decepção da mulher, que entendeu a preocupação do rapaz, só não a rispidez ante a surpresa do regalo, decidiu curtir sozinha o brinquedinho e pegou de volta o presente dado ao belezura.

Os fins de tarde passaram a ter um ar diferente na vida da moça, que ganhou gosto pela patinação e já arriscava algumas manobras diferentes. Ela estava tão alto-astral que até os desagradáveis concertos do namorado tornaram-se mais amenos aos seus ouvidos.

Só quem não parecia se agradar muito era Antenor, que se incomodava ao ver a empolgação da namorada em sua atividade esportiva e saber das novas amizades da moça. Passou a controlar a amada com um aplicativo que mostrava seu percurso e tempo de atividade e movimento. Sim, ela tinha que mostrar para ele seu desempenho esportivo.

Para tentar impedir suas saídas diárias, o musicista teve a ideia de esconder o capacete da querida, item necessário de proteção no quesito segurança a quem anda sobre rodinhas.

Ocorre que o entusiasmo de Sofia era tamanho que mesmo sabida de o quanto poderia se prejudicar sem o tal equipamento resolveu sair para treinar um pouco.

Tudo caminhava e caminharia perfeitamente bem, não fosse o asfalto rachado de material de quinta categoria da empreiteira que venceu a licitação do recapeamento do parque que a bela curtia seu brinquedo preferido. Maldito prefeito, que se fez de cego, surdo e mudo nessa empreitada de qualidade duvidosa. Enfim, parafraseando o sábio Nelson Rodrigues, Sofia beijou o asfalto. Sim, desequilibrou-se com os seus patins naquele mar de propina….

Sem sequer conseguir sair do lugar, e zonzinha da Silva, a moça se deu conta de que não poderia ter saído de casa sem o tal protetor, mas como diria Luís de Camões em “Os Lusíadas”, já era, fia, “agora Inês é morta”, caiu, levanta e vai atrás do prejuízo.

Com muita dificuldade e corpo dolorento, Sofia entrou em um pronto atendimento médico e somente depois de quase duas horas foi atendida por um rapaz ruivo, de sardinhas no rosto, olhar sério e fala ríspida.

_ Olá, mocinha! Já sei o que aconteceu. Que bonito, hein! Você acha que pode pegar um par de patins, sair por aí feito uma doida, de qualquer jeito, sem capacete e se esborrachar toda? Tá achando que a sua cabeça é coco? Não é, não. E olha quanta gente aqui pra eu atender. Da próxima vez, se for pra esquecer o juízo, nem sai de casa.

_Olha aqui, senhor enfermeiro, eu não vim até essa espelunca para ouvir sermão de ninguém. Tudo está doendo muito, não consigo mexer a mão, mas quer saber de uma coisa, vou embora daqui.

_ Quietinha que você já aprontou muito por hoje, não acha? Fica aqui, sentadinha, vou fazer um raio X mas já deu pra ver que também torceu o pulso. Acha que vai resolver isso onde, na padaria, no açougue? Para de reclamar que eu já te atendo.

Ela já não sabia se ficava ou esperava, mas a dor era tão grande que resolveu ficar por lá.

Trinta minutos depois, o mesmo profissional atendeu a moça, que teve que imobilizar o antebraço.

_ Por sorte não foi nada grave. Só mesmo o pulso. Quinze dias de molho, sem sequer olhar para o patins, fui claro? _ ordenou o ruivo.

Com os nervos mais amenos, os dois conversaram por alguns minutinhos e descobriram que eram amigos de infância. A empatia passou a reinar no recinto e os dois até trocaram contatos, segundo o moço das sardinhas, para saber sobre a evolução da recuperação.

Assim que foi liberada no pronto-atendimento, Sofia seguiu para a casa do namorado, que não conteve a cara de felicidade ao ver a amada impossibilitada de andar por aí livre, leve e soltinha sobre suas rodinhas.

O tédio da moça aumentava a cada dia. Lembrou-se do enfermeiro estressado e passou a conversar com ele vez em quando em mensagem de celular.

Os tão esperados quinze dias se passaram e Sofia foi retirar o gesso do braço. Eis que o não mais bravo rapaz foi quem a atendeu novamente. Papo vai, papo vem, não é que a recém-patinadora convenceu o cara a dar uma voltinha de patins? Emprestaria a ele o presente que seria do namorado, que continha todos kit de proteção, e disse que ensinaria os primeiros passos, ao passo que ele topou o desafio.

Aula vai, aula vem, os dois passaram a se conectar cada vez mais, até que, enfim, findou o namoro morno da jovem com a estrela das notas musicais.

A nova dupla de patinadores passou a curtir cada vez mais as aventuras do esporte e, após descer uma ladeira daquelas de dar um friozinho na barriga de qualquer veterano, o ruivo ajoelhou-se de frente para a bela, tirou do bolso uma caixinha contendo um anel de noivado e declarou seu amor, pedindo a namorada em casamento, que sem titubear aceitou na hora.

No dia do casório, tudo pronto, capela arranjada com flores do campo, as preferidas de Sofia, e um presente surpresa do noivo, uma entrada triunfal, ao som do samba predileto da noiva, tocado por um renomado musicista, contratado pela cerimonialista do evento.

Sem saber quem era aquela mulher toda branco, véu e grinalda, com ar de pessoa livre, leve e solta, seguindo em passos lentos em direção ao futuro esposo, estava Antenor, tocando, a contragosto, uma música bastante diferente das de seu costume e preferência.

Assim que a música parou, o violinista se deu conta de quem se tratava naquele altar. Visivelmente atordoado, pegou seu violino e saiu, afoito, rumo a qualquer outro lugar que não fosse aquele ambiente alegre. Ao descer a escadaria, tropeçou e caiu sobre um dos braços, o que lhe resultou em uma licença de seis meses de trabalho.

Lembra do seguro do rapaz? Pois bem, vencera três dias antes do incidente e o pobrezinho esqueceu de renovar. O capacete da ex? Queimou e jogou as cinzas no rio.

(Imagem: Freepik)

Quatro dias de sexo no acordo pré-nupcial? Não é muita coisa não, Jennifer?

Eteomilda faz de tudo para chamar a atenção do marido. Doze anos de casados, já viu, nem sempre o cara está de prontidão pra saciar os desejos da esposa. E quando isso acontece, é a vez de ela não estar muito afim, pinta uma dor de cabeça, um sono, entra naqueles dias e assim vai a vida conjugal dos dois, rumo ao décimo terceiro ano de enlace, regada a reality shows, filmes, conversas nos grupos de celular, muito trabalho, crianças para cuidar e o cachorro a tiracolo.

Quando se casaram, num sábado junino frio, numa cidadezinha do interior, fizeram juras de amor, daquelas que todo mundo faz pra seguir a tradição. Nesse pacote de juramento, prometeram fidelidade, cumplicidade e união, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza etc. Naquela época era isso que se prometia, com dedos cruzados ou não, mas enfim, a promessa era feita. Se cumpriram à risca? Não se sabe e é melhor deixar para lá, porque a pauta aqui é outra, senão a demanda em questão vai por água abaixo e a torcida aqui é pela felicidade da Eteô.

De dozes anos pra cá as coisas mudaram um pouco. Os juramentos selados nos enlaces agora são outros. Há quem exija em contrato quatro dias de sexo na semana. Ah, se Eteomilda tivesse tido essa ideia antes, não é mesmo? Mas é melhor deixar o passado de lado, até porque tem dias que ela não quer nem ver a cara do cara e vice-versa.

Pois bem, deixemos os dois de molho, tal qual tem sido a vidinha de ambos, para falar de uma dupla famosa e milionária, bem distante dessa realidade humilde e pacata, que resolveu incluir no acordo pré-nupcial essa exigência íntima um tanto quanto inusitada.

Sim, o assunto em destaque é o casamento de duas pessoas mundialmente conhecidas. Ela, uma linda cantora, e ele, ator estupendo. Será que vão dar conta desse pacto? Alguém avisou a essa noiva da existência da menô (pausa para muita coisa) e que essa insiste bagunçar um pouquinho o coreto? Quatro dias da semana? Não sei, não. E o artista milionário, será que está ciente que nem sempre as coisas caminharão a mil maravilhas, que às vezes um simples friozinho a mais coloca tudo a perder e bau-bau cumprimento de artigo X, inciso Y?

Precisava registrar em cartório? Ao que consta, a proposta surgiu da esbelta e charmosa mulher, numa súbita necessidade de garantir dias de glória ao lado do amado na mansão comprada pelos dois pela bagatela de cinquenta milhões de dólares.

O que não se sabe é a validade desse documento fogoso. Fico só imaginando a cobrança de um dos dois já no terceiro dia da semana e nada de sexo, sim, isso é normal gente, e acontece nas melhores famílias. No quarto dia, terão de cumprir com o que consta no documento nos próximos, em datas ininterruptas. E as dúvidas fluem um pouco mais: como será a agenda desse casal?  E as viagens de negócios, gravações, enfim, será que o acordo inclui experimentos virtuais do casal? Se sim, ok, tá tudo certo.

Tá, mas e a Eteomilda que não fez nenhum trato com o marido, está louquinha para fazer jus a pelo menos um diazinho no mês e nada de Eteobaldo comparecer, qual seria a solução para essa mulher, gente? Não faço ideia, se fizesse, aplicaria para mim.

E você, se pudesse reaver seu contrato nupcial ou fazer um agora, qual seria a cláusula que não poderia faltar de jeito nenhum? Eu faria um ajuste automático de revisão a cada cinco anos. Quatro. Não, três. Vai, um ano. Ou melhor, não casaria.

Família de bem e dos bons costumes

Quem diria que um balão de gás causaria tanto alvoroço em uma festinha infantil?

Emanuele e Astolfo estavam felizes da vida com a celebração de aniversário de um aninho da única filha do casal.

Tudo pronto, churrasqueira ligada, enfeites da personagem preferida da bebê por todo o ambiente, convidados à espera dos pais, mãe arrumadinha, feito madame, após ter passado horas no salão e o pai, tranquilão, com o seu bermudão, camisa regata e chinelo nos pés.

Ambos ainda estavam em casa, prestes a sair em direção ao salão do condomínio quando, de repente, o sinal do celular do marido tocou. Como o rapaz estava no banheiro, a esposa foi ver de quem se tratava, já que poderia ser alguém na portaria aguardando autorização para entrar, assim ela pensou.

“Meu amor, é uma pena não poder te ver hoje, dê um beijo na nossa pequena por mim”.

_ Meu amor? Que raio de “meu amor” é esse? Astoooooolfo, seu desgracento, que história é essa de “meu amor”? Sai desse banheiro agora.

_ Não sei do que você está falando.

_ Como não sabe, seu cara de pau de uma figa, olha isso aqui.

_ Quem te deu o direito de mexer no meu celular?

_ Quem te deu o direito uma pinoia! Essa porcaria tocou e fui ver quem era, seu idiota.

No momento em que a dupla se desentendia, a vizinhança inteira presenciava a cena, alguns disfarçadamente, enquanto outros faziam questão de mostrar que estavam lá, de camarote, vendo o casal, de família exemplar, armando o maior barraco na porta de casa.

O penteado que Emanuele fez e gastou uma fortuna foi por terra, já que a moça se descabelava, tamanha fúria que sentia.

_ Você quer saber mais? Eu também tenho um amante, pronto, falei. E ele é muito melhor que você em tudo.

_ Ah, sua sem-vergonha, quem é esse babaca? Você está blefando, só pode!

A gritaria era tamanha e cada vez mais aumentava a plateia para ver a discussão dos dois.

O celular do marido tocou novamente e antes mesmo de ele ver a mensagem, a esposa voou por cima do rapaz e conseguiu pegar seu aparelho.

Era mais uma mensagem da mesma pessoa anterior, o que deixou a mulher mais irritada, já que não aparecia nem a foto, tampouco o nome de quem escrevia.

“Espero que o balão tenha chegado a tempo para me representar”.

_ Como assim? Essa lambisgoia ainda teve a coragem de mandar essa porcaria aqui pra festa da minha filha? _ disse Emanuele, olhando para um lindo e enorme balão de gás com o nome da aniversariante escrito em letras garrafais e uma foto da menina, presente surpresa endereçado à família.

_ Então foi essa vagabunda horrorosa que ainda mandou essa droga aqui para a minha filha? Quer saber, não vai ter mais balão, não vai ter mais festa, não vai ter mais droga nenhuma aqui. Some daqui, seu cretino – disse a esposa enfurecida e soltou o balão no ar, que se perdeu no céu em segundos. Em seguida, ela deixou uma mensagem de voz gritante para quem enviou as mensagens, de modo que todo o quarteirão ouviu.

“Olha aqui, sua vaca oportunista, tá mandando recadinho pro meu marido? Pois fique sabendo que ele é todo seu, eu já tenho outro muuuuito melhor que ele. Ah, e leve com você toda a família dele: a sogra insuportável, a cunhada fofoqueira e o resto da corja. E tem mais, fique sabendo que até hoje não descobriram o motivo da disfunção erétil do bonitinho aqui. Mas agora o problema é seu. Passar bem”.

Ainda desnorteado, sem entender quase nada daquela confusão toda, Astolfo pegou seu telefone. Ao ver o número que aparecia com a mensagem carinhosa, logo percebeu que se tratava de sua mãe, dona Isaura, um doce de criatura e que sempre gostou de surpreender a todos.

Sem tempo hábil de apagar a fala da esposa, a mãe do rapaz escutou tudo, tudinho.

_ Olha o que você fez, sua maluca, quem escreveu foi a minha mãe.

Totalmente sem graça e sem saber o que fazer diante de todos, Emanuele fingiu se tratar de uma encenação, improvisou um belo discurso em sua garagem enaltecendo a figura da sogra, a importância da família e dos bons costumes, e convidou todos os presentes para a festa, que acabou custando-lhe os olhos da cara, dado o triplo de participantes.

Só quem não engoliu muito bem essa história toda foi Astolfo, que ficou com uma pulga atrás da orelha com a revelação da mulher sobre sua suposta traição, mas preferiu se convencer de que tudo não passava de um mal-entendido. Será?

O carteiro cupido

Policarpo era o melhor entregador de cartas de Birituba do Norte, profissão escolhida desde criança. Ainda pequenino, lá ficava ele, em cima de um caixote de madeira daqueles de carregar frutas e verduras para avistar pelas frestas da janela da sala o trabalho do carteiro, que levava de casa em casa as tão esperadas escritas de amor, desamor, alegria, tristeza, despedida, mistérios e surpresas.

Assim cresceu, observando, dia sim dia não, o seu tão sonhado futuro trabalho. Carregar a tira colo pequenas e grandiosas histórias era para Policarpo uma magia sem fim. Logo que cresceu, tornou-se profissional, “com muita honra”, como fazia questão de dizer.

O sonho do pai era que o filho se tornasse um mestre da educação, daí a homenagem do nome do rapaz a um dos personagens de Machado de Assis em “Conto de escola”. O centrado Professor Policarpo lecionava para um grupo um tanto quanto difícil de adolescentes. Era só uma menção ao nome, nada de mais, simples assim.

Mas não teve jeito. As correspondências Policarpo carteiro queria entregar, e as entregava, uma a uma, embaixo de chuva ou de sol. Virou o funcionário exemplar, com direito a quadro de foto de meio sorriso na parede principal do galpão da empresa.

A boa conduta do rapaz ganhou um par de parênteses. Certo dia, uma carta bem cheirosa, endereçada à Cleodomira, casa 152 da Alameda dos Ipês, chamou-lhe a atenção. Olhou para o envelope e não resistiu à tentação. Abriu.

Nos dizeres, escritos por quem não via a mulher há muito, o autor, de codinome Vavá, lamentava a perda da amada.

_ Me arrependo de não a ter feito fugitiva naquela noite de São João. Sei que está casada, que nossa história evaporou, mas a cada fim de outono me recordo dos nossos encontros calorosos em meio à ventania e do frio que se achegava da nova estação.

Policarpo sentou-se, deixou a bolsa ao lado e não parou mais de ler as escritas direcionadas à casa da frente, onde a moça vivia sempre cabisbaixa, olhando para o jardim sem flor. Era nítida sua tristeza.

Embora pouco falasse com Cléo, o carteiro sabia que ela, “mulher direita”, jamais se entregaria às tais palavras de amor contidas naquela folha de papel, decerto que nem a abriria por receio de cair à tentação.

Mas a carta estava aberta, Policarpo já fez o favor de desenterrar uma história abruptamente rompida num passado distante. Uma vez lida, tinha de ser respondida, assim pensava o entregador, que não pestanejou e logo estava ele a responder, em nome de Cleodomira, com uma única frase.

Sim, também me arrependo. Lacrou o envelope e fez questão de levar mensagem até a casa de Vavá.

As correspondências para Mira não paravam de chegar. Policarpo sentava-se em um banquinho acimentado em frente ao número 152 e as lia, linha a linha, imaginando o amor perdido da pobre sonhadora que se deixou levar por uma ilusão amorosa sabe-se lá por quê.

Eteobaldo, homem fino, elegante e gentil, conquistou o coração partido da esposa, mas em pouco tempo de casados toda a finesse, elegância e gentileza deram lugar a um ser ríspido, grosseiro e insensível. Descrente de que poderia reviver tudo o que já vivera no passado, a moça deixou-se levar pela vidinha vazia e rotineira.

Para entender melhor os anseios de Cléo e tentar consertar uma história de amor que poderia ser resgatada, Policarpo passou a se aproximar da mulher, que se tornou confidente do rapaz.

_ Estamos juntos há quase uma década. Foram quatro anos de paixão, três de amor e dois de rotina. Eteobaldo está cada dia mais frio e distante _ narrou a moça.

Policarpo já estava convicto de que deveria ao menos tentar uma reaproximação da moça com o dono das cartas bem cheirosas. O olhar triste de Mira trazia luz para as escrituras do entregador. Respondeu todas as correspondências de amor em nome da jovem, sem o seu consentimento, tampouco conhecimento.

As cartas vinham e iam numa fluidez tamanha, até que um dia o carteiro propôs, numa de suas escritas passando-se pela moçoila, um encontro. Vavá topou.

Restava a Policarpo apresentar em manuscritos novo recomeço à sonhadora – e assim o fez. Entregou-lhe todas as correspondências por ele violadas.

_ Me perdoe a intromissão, não resisti. Desejo-lhe coragem_ disse, vergonhosamente cabisbaixo, o entregador.

Sem sequer se lembrar da torta predileta de Eteobaldo no forno, Cleodomira pôs-se a ler cada palavra deixada daquelas folhas perfumadas. O olhar vexado deu lugar a um brilho que não se via mais. O doce queimou.

_ Tudo é muito lindo, mas agora é tarde_ lamentou Cléo ao carteiro.

_Às sete da noite, na Praça de Santo Antônio _ disse Policarpo e seguiu sua labuta, leve e sem olhar para trás.

Os dias passaram e lá estava o carteiro a deixar a primeira e derradeira carta de Mira para Eteobaldo. Dessa vez, o exímio entregador não precisou abri-la para saber do que se tratava. Sorridente, fez questão de entregar a correspondência nas mãos do rapaz.

(Imagem: Freepik)

Alice performática

Alice sonhava ser miss. Sempre vivia frente ao espelho treinando como seria sua fala ao ser avaliada no quesito simpatia na tão almejada competição das mais belas.

Os anos se passaram e ela sequer ganhou o concurso de miss caipirinha do clube que frequentou até seus dezoito anos. Ainda em seu mundo das maravilhas, decidiu ser atriz. Fez vários cursos de dramaturgia, ganhou alguns papeis irrelevantes, mas dessa vez não desistiu de seu objetivo.

A Broadway seria o seu passaporte da alegria. E foi pra lá que a moça resolveu ir. Nova Iorque, rumo à avenida mais badalada das produções musicais, com o intuito de estudar, se formar e voltar uma profissional do tablado, ou quem sabe nem retornar e ficar por lá mesmo, quiçá ir para Hollywood estrelando algumas cenas românticas com George Clooney ou se até lá esse se aposentar, algum “produto” similar.

Não conheceu o astro, mas se apaixonou por outro George, um físico fascinado pela profissão. Mas para Alice, o fascínio emanava mesmo das telonas e dos famosos teatros. Não perdia uma estreia, desde os clássicos aos mais performáticos trabalhos, principalmente os que seguiam a linha da artista sérvia Marina Abramovic.

Alice ficou tão encantada com as performances que via pela cidade que passou a estudar essa “modalidade” artística, e desde então, não parou mais de atuar, seja nos palcos, na rua, em casa, por onde passasse.

A moça era de poucos amigos. Anny, sua companheira de apartamento, e de palco, era sua única confidente. No curso que acabaram de se inscrever, tinham como tarefa logo no quinto dia apresentar uma ação. A partir desse contexto, surgiu uma ideia de Alice, que precisava ter como plateia alguém que não soubesse que o que estava fazendo era uma atuação performática.

Ela e George sairiam para um jantar. Ao retornarem, sua sala virou o palco da cena. Os dois conversaram um pouco, beberam um vinho inteiro, riram, dançaram, e de repente, como se acabasse de tomar um cálice de antídoto, Alice, num ritmo totalmente oposto ao do som que soava uma bela e linda canção, desfaleceu lentamente, numa atuação digna de produção hollywoodiana.

Tudo parecia real e tão verdadeiro que George, ao ver a namorada caída feito bela adormecida, ligou para alguém, num ato de desespero, dizendo: “Liza, minha querida, ‘minha amiga’ morreu. O que eu faço agora? Vou embora daqui, e se acharem que fui eu?”, disse, apavorado.

Anny, que estava em seu quarto, foi até a sala e se fez acreditar no que ocorreu. Confirmou a “morte” da amiga ao rapaz e disse a ele que tomaria todas as providências, levando o corpo da moça para sua terra natal. E lá mesmo George se despediu friamente da bela.

Quando ele foi embora, Alice e a amiga não acreditaram no que ouviram. O cara só queria saber de sumir dali. A dupla de atrizes já pensava qual seria a próxima atuação da pseudomorta, dessa vez não mais em nome da arte e sim da vingança ao saber que, num momento tão dramático, o amado teria ligado para outra mulher e a chamado de minha querida, enquanto a namorada, num piscar de olhos passou a ser sua “amiga” apenas.

 Abramovic quase perde seu posto de “avó da arte da performance”. Isso porque a moça incorporou sua mais nova personagem: a alma de vestido preto e atuou em sua melhor apresentação, numa perfeição digna de Oscar.

Numa noite de lua cheia, janelas e cortinas entreabertas, George, que morava sozinho em um casarão, pegou no sono, no sofá, ao lado da lareira. Em mais um ato cinematográfico, a Alice entrou em ação. Pulou a janela e, como conhecedora de todo o ambiente, foi em todos os pontos da casa onde havia espelhos, deixando nesses locais a mesma mensagem. “Pra mim você também morreu” e, claro, assinando embaixo “Alice, sua eterna namorada”. Ao terminar seu desempenho performático fantasmagórico, deixou no ambiente o som de sua voz com os mesmos dizeres, em tom sombrio e repetitivo. Antes de sair, borrifou pela casa seu perfume predileto, deixando, assim, seu cheiro por todos os cantos. Também desligou as luzes, mantendo acesas somente as velas fincadas nos castiçais espalhados pela sala. A natureza também favorecia o ambiente melancólico daquele início de madrugada ventosa típica de início de outono.

Logo que acordou, George quase fez jus às escritas de Alice e, por pouco, não morreu do coração.

Depois desse dia, já cansada de brincar de ser atriz em terra estrangeira, Alice, que não se sentia mais no país das maravilhas, resolveu voltar para o Brasil.