Sofia era a típica mulher bela e recatada. Casada no coração, separada no papel e de alma tranquila. Sempre discreta no olhar, na fala baixa e principalmente na vestimenta. Antes de viver uma história pacata com seu novo amor, havia se casado com um brutamontes que só sabia ver na mulher um belo pandeiro e o que ele chamava de “comissão de frente de primeira”.
Um dia, deu um basta nesse samba de uma nota só e logo conheceu o dócil doutor Simon, um simpático promotor de Justiça cheio de amigos ao seu redor. Três meses depois, passaram a viver sob o mesmo teto.
A relação era boa, mas as sextas-feiras eram sagradas para o advogado. O expediente nesses dias terminava um pouco mais cedo. Ele e seus amigos de faculdade se reuniam para jogar conversa fora, falar sobre trabalho, contar piada, jogar futebol, enfim, curtir a vida.
Enquanto isso, Sofia lia alguns romances, cuidava da casa e, de vez em quando, participava de um culto numa pequena igreja perto de casa.
Raramente o casal saía junto e ninguém conhecia a mulher do promotor. Às vezes ela fazia uma visita surpresa ao parceiro no escritório, levava um bolo fresquinho, deixava um bilhete romântico na mesa e ia embora. Num desses dias, o telefone tocou e, pra fazer a vez da recepcionista de prontidão, atendeu.
De um lado, uma mulher de voz sensual, sotaque estrangeiro e ar mercantil.
_ É da parte do “doctor” Simon?
_ Sim.
_Quem fala?
_ A secretária _ disse Sofia.
_ Preciso confirmar uma encomenda para hoje.
_ Da parte de quem?
_Da agência de moças.
Pausa para um respiro profundo, um gole de uma água que estava em um copo sobre a mesa e outra respiração profunda.
_ Ok, qual é do dia? _ Perguntou Sofia.
_ Mary, já está pago no cartão do doutor.
_Pode passar o roteiro?
_ Às oito horas, no apartamento do Dr. Reymund, sessão de Pole Dance da “Mulher Tigre”, o endereço é ….e disse onde seria a tal reunião de amigos.
_ Sinto muito, mas hoje não será possível, pode cancelar.
Assim que terminou a conversa, o amado saiu da sala e ela disse que alguém tinha ligado para confirmar uma entrega e ela havia confirmado.
Furiosa por dentro, mas de aparência pacata e serena, saiu do consultório pensando no tal show da tal MT.
O promotor passaria em casa para se arrumar e sair rumo ao bate papo de homens. Logo que chegou, a mulher atendeu a um telefonema.
_Alô, sim, é da casa dele. Meu Deus! Vou avisar. Até logo.
Com cara de espanto, disse a ele que sua mãe, que vivia a 500 quilômetros de distância em uma casa de repouso, passava muito mal e, em estado febril e terminal, clamava pelo nome do filho caçula, ele, por sinal.
Sem pestanejar, foi direto ao encontro da progenitora. Três horas e meia depois, chegou ao local e encontrou dona Gertrudes esbanjando saúde num campeonato de fox-trot das “panteritas da casa das senhoras”.
Enquanto isso, na casa de Rey, o som da campainha tiraria o sossego dos senhores. De longe dava pra notar a habilidade voraz de animal feroz e garras afiadas que acabara de chegar. O show começou.
_Dessa vez dona Clô soube escolher direitinho. Que fera! _ disse o anfitrião.
Simon tentou chegar a tempo pra aproveitar a festinha, mas só encontrou algumas plumas no chão.
Sofia, que mal sabia dançar um simples bolero, mostrou-se excelente dançarina. Gostou tanto do negócio que resolveu abrir a “Tigresas em ação”, tornando-se apenas a administradora desse lucrativo negócio.
O relacionamento com o advogado acabou naquela mesma semana e a solidão tomou conta de Simon, que não soube entender o motivo do fim, já que era um companheiro tão bom! Às sextas-feiras passou a frequentar um retiro espiritual e voltava no dia seguinte, de alma lavada, mas vazia. A amizade com os colegas de profissão foi diminuindo, até que recebeu um convite especial que o deixou lisonjeado.
Sábado de lua cheia e céu estrelado, lá estava Simon todo de azul e uma faixa branca na cintura, feito seus amigos frente ao altar à espera da futura senhora Rey. Eis que entrou uma mulher bonita, recatada e do lar com seu exuberante e nada discreto vestido felino, véu e grinalda.