Os pertences de Selmo

nu

Stefânia sempre sonhou em casar de véu e grinalda, numa bela e lotada igreja. Mas como nem tudo o que se planeja acontece, ela “juntou os trapos”. Foi morar com Selmo, com quem namorava há três anos. Ele nunca gostou de nenhum tipo de celebração. Noivado, casamento, festa, tudo isso para o rapaz nunca passou de comércio. Já ela via tudo como sinônimo de prova de amor.

Muito impulsiva e comunicativa, Stefânia sempre acreditou que na vida, tudo o que acontece de bom dever ser celebrado, festejado e contado para todo o mundo. Mas ele buscava discrição.

Na internet, a imagem da moça era presença constante. Linda e formosa, revelava ao mundo suas fotos com o amado. Ele nunca postava imagens suas e evitava qualquer tipo de comentário.

Selmo e Stefânia mantinham uma relação aberta e confiante, fosse na vida afetiva ou financeira. Utilizavam a mesma conta corrente. O cartão de crédito também era compartilhado pelos dois. Não havia segredo entre o casal, tanto é que até mesmo a conta na rede social era de comum uso.

Tudo era muito aberto, até que num sábado de aleluia, sem querer, Stefânia descobriu que o amado havia adquirido um novo cartão de crédito. Até aí, tudo bem. Ela viu a cobrança detalhada com alguns nomes estranhos, mas não se abalou, afinal de contas, poderia ser o nome do restaurante que ele almoçava.  Mas o tempo passou e ela nem mais se lembrava do cartão, muito menos dos valores cobrados.

Stefânia é fotógrafa e sua especialidade é fotografar casamentos, principalmente o momento da entrada triunfal da noiva ao subir ao altar. Apesar de se manter firme e forte em seu trabalho, sua alma sempre chorava de emoção a cada enlace. No fundo no fundo, ela acreditava que um dia Selmo a convidaria para jantar e lhe daria um anel de brilhantes (nem precisaria ser verdadeiro), como pedido de casamento.

Sonhos à parte, ela precisava trabalhar e todo final de semana era aquela correria de flashes por todos os lados. Às segundas-feiras, a labuta permanecia, em casa, em seu computador velho, que há muito tempo já havia dado sinal de aposentadoria. Dito e feito. Desfaleceu, por invalidez! A freelancer teve que deixar sua velha máquina de lado e recorrer ao companheiro, que emprestou seu notebook para a moça dar sequência com o tratamento das imagens fotografadas.

Totalmente obstinada a fazer o melhor trabalho, Stefânia não tinha olhos, nem ouvidos, sequer pensamento para mais nada, até que, de repente, o chamado de alguém na tela tirou sua atenção.

Era uma pessoa, do sexo feminino (Emily), chamando por Selmo 1234 na internet, na mesma rede social em que ela acreditava existir uma única conta, conjunta. Os noivos das fotos ficaram para segundo plano. Stefânia contou até dez, respirou e abriu a tal mensagem. “Cada vez mais você me surpreende, adorei o convite e olha, se você continuar insistindo, vou acabar me casando sim com você, o anel é lindo…” Mensagem lida e a respiração da fotógrafa já não era mais a mesma. O calor de quase 40 graus deu lugar a um frio que parecia vir do Alaska. Ela suava, tremia e quase teve um ataque do coração, mas prosseguiu nas buscas de conversas anteriores. Numa das mensagens, a moça, que parecia ser bonita na foto, comentava a tarde gostosa no motel. Bingo! O cara tinha um cartão de crédito e uma conta na internet exclusiva para usufruir com a tal Emily.

Na mesma hora Stefânia ligou para o celular do marido, que estava desligado – ele tinha uma reunião importantíssima com o diretor geral do banco, na agência dirigida por ele.

Num ato impulsivo, ela decidiu resolver o problema, a começar por limpar a conta corrente dos dois e em seguida se livrar dos pertences do seu agora ex. Mas, além de sonhadora, Stefânia sempre foi muito criativa, e, certamente, não desfaria dos objetos do amado de forma tão natural. Selmo não merecia tamanha simplicidade naquele momento. Na verdade, a tal criatividade era a adaptação de um caso que ouviu, mas que jamais imaginaria um dia colocar em prática também. Mas colocou. Resolveu brincar de “esconde-esconde” e depositar os objetos de Selmo em lugares diferentes, com pistas para que ele fosse encontrando peça a peça.

Os locais escolhidos para a “ação de despejo” tinham algum motivo especial, desde o estacionamento de um shopping (onde se conheceram), o quintal da casa do irmão dela, que é lutador de jiu jitsu (quando rolou o primeiro beijo), um beco, numa rua abandonada e escura (onde transaram pela primeira vez) e , claro, no banco, aliás, ponto de partida da “brincadeira”, lugar onde foram jogadas algumas roupas, cuecas e meias ainda sujas, na mesa de trabalho de Selmo.

Na agência bancária, a primeira pista o direcionava para o tal estacionamento onde tudo começou. Lá estariam suas gravatas, seus livros, CDs e as cartas de amor do casal. Depois, para recuperar os outros pertences, que incluíam até a bicicleta que ele ganhou de seu falecido avô, ele teria que seguir as instruções bem definidas pela ex. Por fim, para resgatar o notebook, que continha informações importantíssimas, ele teria que ir buscar na casa do primo de Stefânia, recém-saído da penitenciária.

Ainda na internet, com a conta da rede social do traiçoeiro aberta, ela escreveu um texto em nome do traíra com os seguintes dizeres: Eu, Selmo, quero tornar pública minha separação, por conta de minha fraqueza sexual. Nunca dei conta de satisfazer os prazeres de minha mulher. Resolvi arrumar uma pseudonamorada, uma garota qualquer, para ver se o problema era a minha esposa, mas não era. Tenho dúvidas quanto à minha sexualidade, talvez seja por isso que sempre fui um fraco na cama.

(Foto: Reprodução Internet – esse cara não é o Selmo!)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *