Sororidade: do Chico à expulsão no BBB

Moça, acho que o “seu Francisco” manchou sua saia. Assim dei início, meio e fim a uma frase que ensaiei por alguns 30 segundos antes de falar com uma mulher que entrava em uma padaria com a vestimenta manchada supostamente de sangue.

Será que eu devo? Pensei por alguns instantes, sem sequer conseguir me concentrar no simples pedido de um pãozinho. E se fosse comigo, acharia ruim? Xingaria a pessoa por se intrometer na minha vida, na minha saia, no meu Chico? Dependendo da forma como a mensagem fosse passada, sim.

E se viesse com uma gargalhada? Dar-lhe-ia uma boa bofetada. O “dar-lhe-ia” aqui foi pra ver bem o tom da minha seriedade furiosa. Não, não acertaria sua fuça, porque ainda poderia ser processada, mas meus nervos ficariam à flor da pele.

Caso chegasse com indiscrição também não iria aceitar com naturalidade.

Mas e se fosse falado bem de cantinho, só pra ela ouvir? Ainda assim haveria o risco de ela dizer que a vida é dela, o Chico dela é dela e eu nada tenho a ver com isso.

Mas e se eu não dissesse nada? Ah, teria uma briga interna comigo, ficaria o dia todo intrigada, irritada e incomodada por me calar. Quer saber, dane-se, vou falar, pensei.

Esperei a moça entrar no carro, pedi para baixar o vidro e falei a tal frase acima citada com uma cara já sem graça de quem havia se intrometido.

Sei que muitas pessoas teriam me repreendido com algo do tipo: por que você só não viu, ficou quieta e foi embora, para de se meter na vida dos outros. Mas ela agradeceu com um pequeno sorriso e eu fui embora com a minha sororidade do dia cumprida.

E por que resolvi trazer esse tema hoje aqui? Pra dizer que sou legal? Não, aliás, sou chata pracarai, como dizem algumas pessoas, a começar por alguns caras quando eu me meto a ser “feminista”, ou melhor a lembrar sempre que o mundo mudou, que os direitos são os mesmos, que não é não, que não existe fica quieta, tom ameaçador, nada disso. Aliás, a depender de muitos desses aí, deveríamos usar o ChatGPT para perguntar tudo o que devemos falar frente a eles para não incomodá-los. Ah, nos poupe, meninos.

E só para finalizar, essa semana vimos um belo exemplo de sororidade após o episódio de assédio de dois integrantes do reality show brasileiro BBB 23. Ao serem expulsos do programa, aliás, ato imprescindível, a vítima sentiu-se culpada e foi amparada pelas meninas da casa. “É um posicionamento que é necessário ser feito”, disse uma delas.

Sim, precisamos nos posicionar, ajudar, chamar de cantinho quando necessário desde as atitudes simples às mais complexas.

(Imagem: Freepik)