“Vida curta” a todos nós

Um dia desses uma pessoa parou e me perguntou se eu não tinha inveja daquelas mulheres estilosas, de corpo alinhado e definido, pele esticada feito rede curta de balanço, bonitonas, que não saem do salão, que estão toda semana com a unha feitinha, cabelo arrumado, como se se produzissem a cada dia para ir ao seu próprio casamento.

Fui assertiva em responder que não e afirmativa ao dizer que tenho inveja é daquela mulher que desperta com o alvorecer, em pleno domingo, com o galo ainda cantando as últimas notas, que toma uma ducha fria, prepara um café especial regado a frutas e integrais e sai pra correr, andar de bicicleta, nadar, patinar. Essa, sim, eu invejo, aliás, admiro, palavra certa. Quando eu amadurecer de verdade quero ser assim.

Uma dessas admiráveis certo dia me disse que precisamos aproveitar muito porque a vida é curta como um fim de semana na praia, passa voando que a gente nem sente. É verdade. Curtíssima. Mas daí veio um rapaz de poucos afazeres e nenhuma alegria no olhar, numa contradição que me deixou confusa, dizendo que ela é longa, muito longa.

Parei, pensei, respirei e cheguei a uma conclusão de que a fita métrica e o relógio são os mesmos tanto para a moça, que parece medir a vida com uma colher de chá, enchendo-a até o topo com os melhores ingredientes e leveduras para dar a ela o sabor e a imensidão que merece, como para o rapaz, que faz caber na sua grande concha existencial uma sopa aguada, sem sal, sem graça, sem nada .

A diferença está no quão se aproveita, ou não, dessa tal coisa chamada vida, que de tão única não achei nenhum sinônimo que a substituísse aqui. Então, o que me resta é desejar “vida curta” a todos nós.

(Texto: Claudia Rato, autora do livro Pra mim você morreu / Imagem: Freepik)