
Desde o nascimento de Nilo que Lourdes não fez outra coisa na vida que não fosse paparicar o filho com todos os mimos possíveis. Na escola, era o filhinho da mamãe. Quando começou a trabalhar, fazia questão de levar a comida quentinha para o filho comer todo dia. Até que o belo par de olhos azuis conheceu Clara, outra linda com olhares parecidos aos do jovem.
Nilo passou a chegar mais tarde em casa e até a dispensar a quentinha da mãe, em troca de um belo lanche numa loja de fast food. Parece que a paixão entrou mesmo na vida do rapaz. Clara não era má pessoa, mas para Lourdes não servia para seu filho. Explicações? Não tinha. Não servia e ponto.
Para tentar conquistar o coração da sogra valia de tudo, até se atolar num carnê com prestações que pareciam não ter mais fim, só para agradar a mãe do seu amado mobiliando sua casa inteirinha. Ela fingiu ser amável com a surpresa e a nora fingiu ter acreditado.
Clara e Nilo já não mais largavam um do outro, até que resolveram se casar, mesmo contra a vontade da mãe. Assim que voltaram da lua de mel, algumas comparações do marido irritaram a moça. “Não é assim que se dobra essa camisa. Se dobrar dessa forma estraga a gola, minha mãe me ensinou”, disse e também palpitou sobre a quantidade de pó que deveria colocar no café, porque o da mãe era maravilhoso e tinha que ser igual.
Uma vez por semana dona Lourdes ia até a casa dos dois para dar uma geral. Quando Clara chegava, parecia entrar em local desconhecido, tamanhas mudanças que eram feitas.
Nilo era o único filho de Lourdes. Quando ele tinha dez anos, ela se separou do esposo boêmio. Desde então, seu único propósito passou a ser cuidar do garoto.
Lourdes sempre foi uma mulher muito bonita. Quando saía com Nilo, muitos pensavam se tratar de um casal. Sempre bem vestida, nunca saia de casa sem estar bem maquiada, nem que fosse até a padaria, motivo pelo qual chamava a atenção dos marmanjos que passavam ao seu redor.
Assim que Nilo se casou, Lourdes passou então a olhar também para aqueles que a admiravam por aí, até que conheceu Renê, cinquentão elegante, bonito, veterinário, motociclista e estiloso.
Mas nem mesmo o romance fez a sogra deixar de pegar no pé do casalzinho. Sábado à noite, os dois prontos para assistir a um filme romântico, lá aparecia Lordes e Renê à espera da autorização para subirem ao apartamento. No domingo, em dias de plantão do namorado, Lourdes, para fugir da solidão, partia para seu programa predileto de almoçar na casa do filho. Até o melhor menu preparado pela nora não agradava a sogra, que acabava sempre dando suas dicas culinárias para melhorar o banquete.
Volta e meia Clara ouvia algumas insinuações de Lourdes sobre o relacionamento do filho, mas se fazia de surda e muda.
Clara sempre foi alérgica a pelo de cachorro. Já Nilo nunca teve problema com animal, aliás, por ele teria um canil dentro do apartamento. Para agradar ao filho, a mãe deu de presente ao casal um lindo workshare. Em pouco tempo, o som dos espirros superava ao latido do bichinho. Clara já não aguentava mais a intervenção da mãe do rapaz, que volta e meia falava para o filho que ela não servia para ele. Também já não tinha mais nem pulmão de tanto tossir e espirrar, até que resolveu devolver o animalzinho, mas achou melhor levar direto ao consultório do namorado da sogra, homem sensato.
Sem a presença de Lourdes, Renê parecia ser mais agradável, tanto que a moça pensou: “Como pode um cara tão envolvente, educado, bonito, inteligente e charmoso se interessar por uma mulher como a minha sogra, ele não serve para ela”. A moça lembrou-se das tantas vezes em que Lourdes disse ao filho que ela não era mulher para ele. A frase veio a calhar e a jovem resolveu então acreditar que não era páreo para o filho, mas também que o namorado doutor era muita areia para a coroa. O clima esquentou e os dois se envolveram de tal forma que não dava mais para esconder, até que certo dia Clara viu que realmente não servia para o queridinho da mamãe e o devolveu para seus braços, já que a sogra acabara de levar um fora do cinquentão.