Acredite no seu poder Cinderela versão 2024

Resolvi repetir algumas coisas neste ano, a começar por livros já lidos e filmes vistos. Isso é bom, ao menos a mim, pessoa desprovida de boa memória.

“A metamorfose”, de Franz Kafka, foi a obra que escolhi reler. Logo no primeiro parágrafo, o escritor tcheco descreve, com suas minuciosas e sábias palavras, a anatomia de um inseto nojento. Nessa releitura vi quão rica pode ser uma boa metáfora. O livro traz uma boa reflexão sobre as relações. Em um único dia lá se foi metade das páginas.

Já a versão moderna – e necessária – de Cinderela foi minha opção de releitura audiovisual. Nessa nova revisão, o filme me fez relembrar uma frase recente de um amigo que se intitula “conservador” e que foi assistir produção similar antes de levar suas filhas ao cinema. Era a Barbie, que não passou no teste do pai preocupado. “Muito feminista”, concluiu. Uma pena.

Ainda sobre o remake da futura princesa dos sapatos prateados, lembrei-me da ocasião na qual outra amiga instigava a prima quarentona a procurar por um homem endinheirado. “Não preciso disso, eu sei me sustentar muito bem”. O tom não foi tão simpático quanto o da personagem que abdicaria sua vida num palácio caso não tivesse sua própria independência e reconhecimento do seu talento de costureira, mas soou perfeitamente igual nos ideais. Palmas pras duas, quando eu crescer quero ser assim. Sim, às vezes bate a vontade de jogar o despertador bem longe e sonhar com um príncipe encantado e nenhum boleto atrasado. Mas não perdi meu chinelo em nenhuma mansão perto da meia-noite, então resta inspirar-me e correr atrás do meu valor.

Outra coisa que pretendo rever esse ano é um curso de crônicas de uma famosa e respeitada cronista que fiz no ano que se foi. Na ocasião, assisti todas as aulas em um único dia, na ânsia de acabar logo. Tenho a impressão de que dessa vez será mais produtivo e que valerá à pena essa repetição também.

Só é uma pena que não dá para reviver uma festa inesquecível, o nascimento de um filho, o baile da formatura, um dia memorável em família. A vida não tem replay, essa não dá para rebobinar. Repetir de ano, só na escola, e isso ninguém quer.  Sendo assim, reavivamos os bons livros e filmes, lembremos dos bons fatos já vividos mas façamos acontecer hoje novos momentos nessa vida, que é única. A hora é agora. Acredite no seu poder Cinderela versão 2024. Feliz Ano Novo.

(Crônica de Claudia Rato, jornalista e escritora, autora do livro Pra mim você morreu)

Após sete anos de namoro, enfim, se conheceram

Após sete anos de namoro, enfim, se conheceram

Dia de conhecer Winglinton, seu futuro marido. Gérbera não via a hora de sentir o cheiro do amado, tocá-lo e vê-lo de pertinho.

Tudo começou sete anos antes, ela com 11 e ele, 14. A menina ingênua que gostava de videogame mantinha um canal na internet para deixar alguns comentários sobre joguinhos eletrônicos. Ambos tinham o mesmo gosto.

Certo dia, num desses encontros virtuais, um grupo de moleques que não tinha o que fazer a não ser desdenhar da vida alheia resolveu caçoar de um garoto. Defensora única do pobrezinho, Gérbera fez um simples comentário. Ao ler as singelas palavras da menina, Winglinton quis logo saber de quem se tratava, até chegar em sua conta pessoal e ouvir as falas da menina sobre alguns dos jogos da época.

“Senti um arrepio imenso”, disse o rapaz, encantado com a voz suave e tímida da pequena. Daquele dia em diante, ele sabia que seu destino estava traçado, bastava segui-lo, como manda o figurino. E ele seguiu, a começar por acompanhar todas as publicações da pequena blogueirinha.

Os recursos eram limitados. Videochamada? Não existia. Mensagem de voz? Idem. A distância parecia estreita em meio às mensagens de textos dos dois. Um encontro? Impossível e inviável. Ela vivia numa cidade próxima de uma capital lá do comecinho da ponta do mapa, e ele bem do lado oposto nessa geografia toda, a três dias de estrada. Longe, muito longe.

Ainda que constantes, as falhas de conexão jamais desconectavam esses dois, que não paravam mais de papear – e o que assuntar? Sei lá, coisas de criança, aliás, bom seria se os adultos enamorados, principalmente os casados, assuntassem assim vez em quando. Bem-vinda, dona leveza.

Voltando à pureza dos namoradinhos, já sabido do que queria, no segundo dia de papo, Winglinton pediu a menina em namoro, que relutou, mas aceitou. Sim, ela tinha onze apenas.

E o namorico começou, mesmo sem um sequer saber nadinha do outro. Por duas semanas nem nome sabiam, só o apelido. Ninguém levava isso a sério. É brincadeira de criança, só pode ser, diziam os mais próximos.

Um ano se passou, três, quatro e os dois lá, na crença de que eram, sim, namorados.

O rapazinho nem saía de casa com medo de sentir-se atraído por alguma moça da cidade e trair a namorada virtual e vice-versa. E assim tornaram-se jovens sem jamais ter sequer olhado para outra pessoa, quiçá beijado. Sim, o amor era puro e único.

Assim que completou a maioridade, Gérbera finalmente conheceria seu par, que chegaria de mala e cuia, com estada certa em sua casa e moradia plena no seu coração.

Tudo pronto, colocou seu vestido preferido, borrifou o perfume que chegou pelo correio, presente do amado, e lá foi ela, ao encontro do rapaz, que passou seus mais longos dias dentro de um ônibus, ansioso para finalmente ouvir de perto a voz daquela pequena garotinha do interior, agora menina mulher.

Não sabiam o que fazer, só sentiam um a outro, frente a frente. Aquela rodoviária lotada pareceu vazia, sem mais nada, nem ninguém por perto.

Hora do beijo

Beijo? Era o desejo dos dois. “Mas como, não sei nem o que é isso”, pensavam, na mesma sintonia.

Combinaram o feito mágico em um momento especial. E assim foi. Três dias se passaram desse encontro para finalmente serem um casal de namorados. Os lábios grudaram, feito cola.

O próximo passo dos noivos, que dividem o mesmo lar, é firmar o casamento, marcado para daqui a três meses.

(Essa crônica, escrita pela jornalista Claudia Rato, autora do livro Pra mim você morreu, foi inspirada na história real do casal Letícia e Willian)

A superlua azul e as borboletas no estômago

A superlua azul e as borboletas no estômago

Era por volta das seis da tarde quando olhei para o céu como quem nada queria quando ela parecia abduzir minha alma naquele alaranjado de tom encantador.

Não me contive e tive que falar para todo mundo. Só eu não sabia que ela já era o assunto do dia e que o grande trunfo estava por vir.

“Não esquece de ver a Superlua azul às 22h35”, dizia minha mãe e as várias mensagens em todos os grupos de celular. Pois bem, fui lá eu olhar para cima às dez e trinta e cinco do relógio. Preferi a imagem da tardinha quando me surpreendi com tamanha formosura arredondada.

Meu desdém ao fenômeno, que de azulado nada tinha, me fez lembrar de uma moça, de romantismo exacerbado, triste, em plena noite de núpcias, com a falta de empatia do noivo. Ela o chamou para ver a lua, linda, mas o rapaz nem se mexeu e assim fazia a cada feito lunar. Ela nunca se esqueceu desse dia…

O casal festejava mais uma boda e lá estava ela, linda e redonda, sob o deslumbre solitário da mulher sonhadora.

Chamou, em vão, o amado, e resolveu ir até a rua apreciar a lua cheia, fazendo dessa vez um pedido a ela. “Quero borboletas voando no meu estômago”.

Mal terminou de proferir seu desejo, esbarrou em um rapaz, tão distraído quanto ela, que também apreciava a beleza celestial.

Desse dia em diante nunca mais a moça viu a lua sozinha.

 (Crônica de Claudia Rato, autora do livro de contos Pra mim você morreu/ Imagem: Freepik)

Moça de casa de prostituição ganha sozinha na loteria e causa um rebuliço na pacata cidade onde mora

Prima do bordel ganha sozinha na loteria

“Fechado para balanço”. Essa era a frase escrita à mão em uma folha sulfite colada no portão de um sobrado de fachada discreta em uma pacata cidadezinha do interior.

Um dia antes, já tarde da noite, dona Geminiana, a vizinha octogenária da casa ao lado, fez jus ao aparelho de surdez ouvindo em alto e bom som as palavras proferidas por uma das moçoilas que trabalhava no tal estabelecimento.

_ Ganhei, ganhei.

Esperta e sabida do que aquele lugar oferecia, imaginou se tratar de uma farta gorjeta de algum cliente abastado. Tirou o aparelho do ouvido e foi dormir.

Dia seguinte, logo pela manhã, Anastácia, uma vizinha fofoqueira, estranhou tamanha pacatez local, já que desde cedo a movimentação era grande em frente àquele imóvel cobiçado por alguns cidadãos de bem.

Para tentar entender o fechamento repentino, a mulher, de meia idade e bobes no cabelo, se achegou e fingiu praticar a boa vizinhança recolhendo algumas folhas secas da calçada caídas do ipê amarelo que dava cor àquele ambiente cinzento naquele início de outono, isso só para ver se conseguia alguma pista, um sussurro, uma conversa…

_ Nem em dia santo esse lugar fecha. Alguma coisa aconteceu e eu vou descobrir _ indagou, intrigada, a futriquenta.

Três dias se passaram e nenhuma frestinha aberta. Alguns moçoilos desavisados, a maioria com géis no cabelo, cheirando a perfume barato e com uma cara larga de quem só queria um pouco de diversão, paravam em frente ao local e davam com a fuça na porta.

Laudomiro, o vigilante noturno que vivia com um cigarro na boca, tentou abrir, em vão, o portão. Percebeu logo que sua intuição era um fato.

_ Alguma coisa aconteceu e eu não tô gostando disso. Eu mato essa mulher.

A polícia foi acionada, entrou no local e não avistou nada, nem ninguém.

O zum zum zum era que uma das moças havia ganhado sozinha na loteria, dado um bom agrado para a cafetina, alguns dias de folga para as primas e picado a mula para todo o sempre.

Só o que não se entendia era o desespero do vigia, inconformado com o sumiço da felizarda.

Tal inconformidade deu vez à fúria. Isso porque, na noite anterior ao resultado, Lisbella, a recém-milionária, fez um trato com Miro, seu último cliente daquele dia. Com uma fita métrica nas mãos e o homem totalmente nu à sua frente, tirou algumas medidas de suas partes, que seriam a base das escolhas numéricas para fazer a tal fezinha. Tudo foi minuciosamente medido e, com isso, a sortuda teria seus números de sorte.

Ninguém sabia de nada, mas houve um tratado entre ele e Lisbella. Se acertasse os números, dividiria metade do prêmio com ele. Justo. Ele só queria sua parte combinada e nada mais.

Ao saber da traição e do tratado, a mulher do vigilante tratou de querer a metade do que teria direito e também apareceu na porta do bordel. O advogado do rapaz, por sua vez, não perdeu tempo requerendo seu pedaço de terra nessa história. Cinquenta por cento do que o pobre recebesse seria dividido com o doutor.

_ É pegar ou largar _ disse, com ar de sabichão, o bacharel. Sem saída e desesperado, o moço aceitou e firmou contrato.

Tudo em vão, a moça desapareceu do mapa.

O segurança perdeu sua companheira e foi demitido por justa causa, já que deveria estar fazendo a ronda enquanto posava de cliente modelo de sorte num quarto vagabundo daquela casa de perversão. Também precisou pagar os honorários do advogado, que se apaixonou pela esposa traída e vice-versa.

Não deu muito tempo para a moça rica reaparecer, com uma mão na frente e outra atrás, pobrezinha da Silva pedindo uma vaga em seu suado trabalho depois de cair no golpe do bonitão da internet que tirou centavo a centavo da conta da inocente apaixonada.

Sem emprego fixo, Laudomiro aceitou uma vaga de porteiro na casa das primas. Todo fim de mês lá estava ele e a jovem, na safadeza, com uma fita métrica na mão, tentando alterar algumas medidas.

Em meio às apostas, outra ganhou destaque na cidade, na tentativa de saber a que se referiam os números daquela loteria anatômica.

(Texto: Claudia Rato, autora do livro de contos Pra mim Você Morreu/ Imagem: Freepik)

Tempo que voa, feito falcão

Não sei você, mas tô achando que o tempo tem passado muito depressa. Só não passa pra quem está preso ou pra gestante que sofre de insônia, ânsia, azia e vontade de matar alguém que, coitado, não tem nada a ver com o peixe. Sim, nunca ouviu falar que a grávida escolhe sempre uma vítima para odiar por longos e intermináveis nove meses? Pois bem, isso é fato.

Mas, voltando à cronologia que nos tem feito sentir tudo passar voando, feito falcão-peregrino, algumas situações me fizeram pensar nesse tema, numa segunda-feira de frienta.

Já era tarde, quase seis da noite, quando liguei nem me lembro mais pra quem, pra fazer não sei o que também, e a pessoa atendeu à ligação saudando-me com um bom dia, ao que eu a corrigi, com um sorriso que ela não viu, mas percebeu. Sem graça pela falha, a moça disse que nem tinha notado a hora, que passou tão rápido, e que já estamos em junho, daqui a pouco dia dos pais, fim de ano, Natal…

Ok, se fôssemos só nós duas a pensar nisso naquele dia estaria tudo perfeito, mas tudo parecia fazer questão de nos lembrar que a vida está caminhando na velocidade dois.

Um pouco mais tarde, fui a uma consulta médica, daquelas que a gente vai uma vez por ano e se dá conta de que mais uma primavera se foi. Logo que entrei na sala, a doutora recordou que parecia ontem que eu havia estado lá para fazer o mesmo de sempre. Com expressão cansada de quem trabalhara o dia todo, doze horas, me disse que o desânimo aparente nem era pela labuta mas sim pela festinha junina da escola dos filhos no sábado que passou. Tudo o que ela mais queria era que a segunda se transformasse numa sexta-feira e que junho virasse janeiro para gozar suas férias na praia.

Os exames também foram breves, ao menos pareceram. Na saída, a recepcionista já me orientou marcar nova consulta para o outono seguinte, ao passo que tomei um susto em já ter que me programar para algo que ainda vai levar um tempão para acontecer, aliás, tanta coisa pode mudar em um ano. Mas, ok, marquei, na expectativa de estar naquele mesmo local fazendo o mesmo de sempre e todos ao meu redor felizes, vivos e protegidos.

Ao passar pela catraca do prédio, o porteiro me saudou com um bom fim de semana. Aí eu realmente fiquei confusa. Será que o tempo está passando depressa ou nós é quem estamos apressando a nossa vida?

Rimos da confusão. Desejei a ele ótimos dias antes do tão esperado sábado e domingo e fui embora, em passos lentos. Entrei no carro, liguei o motor e saí, sem forçar muito o pé no acelerador pra ver se conseguia ganhar um pouco mais de tempo pra chegar a algum lugar qualquer sem pressa nenhuma.

(Imagem: Freepik – Texto: Claudia Rato, autora do livro Pra mim Você Morreu!)