Tem prenda pra dar?

Vou te falar que se alguém bater na porta da minha casa com essa frase será recebido com um sorriso carregado da boa e velha nostalgia. Não sei se darei o tal donativo em formato de algum resto de compra de supermercado, mas uma calorosa recepção será garantida.

Nessa era em que tudo é pix, seja no comércio, na feira, até mesmo no farol com alguém te pedindo um trocado, tô achando que esse ano a pedida terá outros moldes e não mais em forma de pacote de sal, de açúcar, um sabonete ou algo nessa linha.

O assunto veio à tona numa roda de conversa sobre preparativos de uma escola para a tão esperada festa junina. Esse papo me rendeu um conhecimento jamais apercebido por mim durante décadas, o que me valeu o dia, isso porque parece que as músicas também sofreram alterações, mudando um pouco o sentido para evitar polêmicas com protetores de assuntos diversos.

Segundo consta, uma das canções mais populares mencionava maltrato a uma pobre rastejante com a frase “olha a cobra” seguida de um “já mataram”, embora eu, distraída, sempre cantei diferente, então não carrego esse peso.

Na minha terra, essa bichinha nunca foi morta já que sua presença era uma falácia, uma vez que entoávamos em alto em bom som “olha a cobra, é mentira”, mas ok, como todo conhecimento é válido, agradeço o aprendizado.

Isso me fez lembrar de outras músicas inapropriadas do passado, já que não se atira mais o pau no gato nem se assustam as criancinhas com as canções de ninar em que o boi da cara preta ou a cuca poderiam surgir a qualquer hora para assombrar o sono dos pequenos. Cantemos para as criancinhas um funk leve ou um piseirinho suave, melhor, assim elas dormem em paz.

Voltando às prendas, esse papo trouxe uma revelação inusitada, ao menos para mim, santa inocente. Sem muitos recursos, uma pessoa, a quem podemos chamar de “leve meliante”, revelou ter desviado alguns mantimentos da tradicional pedida das criancinhas casa a casa para ter o que pôr na panela nos dias em que o marido não conseguia trazer seu ganha-pão com seus bicos de carpinteiro, motivo pelo qual a classe da sua filha nunca ganhava o tão sonhado passeio ao nostálgico parque de diversões hoje não mais existente, mas que alegrou muita gente por quatro décadas em São Paulo – essa era a moeda de troca aos alunos, a turma que arrecadava mais brindes ganhava o passaporte para a Disneylândia dos abastados paulistanos. Maricotinha nunca foi ao tal parque mas, em contrapartida, se lembra até hoje do fubazinho preparado sempre nessa época do ano com tanto amor pela zelosa mãe.

(Crônica da jornalista e escritora Claudia Rato)

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